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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Formalização bate recorde, mas 65% dos empregadores e autônomos ainda não têm CNPJ, diz IBGE

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Pesquisa mostra diferenças por sexo, região, escolaridade e atividade econômica; Sul tem maior proporção de trabalhadores com CNPJ.
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Por Rayane Moura, g1 — São Paulo

Postado em 23 de Setembro de 2.026 às 10h25m
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O autônomo pode exercer atividade por conta própria, sem relação de trabalho com empresas. — Foto: Reprodução/Unsplash
O autônomo pode exercer atividade por conta própria, sem relação de trabalho com empresas. — Foto: Reprodução/Unsplash

A formalização entre empregadores e trabalhadores por conta própria atingiu recorde em 2025: 35% tinham empreendimento registrado no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), ante 24% em 2012, primeiro ano da série histórica.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua – Características Adicionais do Mercado de Trabalho, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (23).

O avanço foi puxado principalmente pelos trabalhadores por conta própria. Nesse grupo, a cobertura de CNPJ passou de 15% em 2012 para 27,1% em 2025, o maior percentual da série histórica.

O levantamento mostra ainda que, pela primeira vez, mais da metade (50,8%) dos trabalhadores por conta própria com ensino superior completo possuía CNPJ.

Entre os empregadores, a taxa de formalização também cresceu, passando de 75,6% para 81,1% no mesmo período. Os dados revelam diferenças importantes por sexo, região, atividade econômica e nível de instrução. (veja os comparativos abaixo)

  • ➡️ Os comparativos históricos desconsideram 2020 e 2021, já que a pandemia de Covid-19 comprometeu a coleta e a divulgação dos dados nesses anos.
Trabalhadores por conta própria e empregadores com CNPJ — Foto: Arte g1
Trabalhadores por conta própria e empregadores com CNPJ — Foto: Arte g1

Mulheres têm maior cobertura de CNPJ que homens

Em 2025, 36,7% das mulheres ocupadas como empregadoras ou trabalhadoras por conta própria tinham CNPJ, contra 34,2% dos homens.

A diferença de 2,5 pontos percentuais aumentou em relação ao início da série. Em 2012, 24,4% das mulheres e 23,8% dos homens tinham empreendimento registrado, diferença de 0,6 ponto percentual.

A maior distância entre os sexos foi registrada em 2022, quando a cobertura chegou a 36,1% entre as mulheres e 33,1% entre os homens, diferença de 3 pontos percentuais.

Trabalhadores por conta própria e empregadores com CNPJ por sexo — Foto: Arte g1
Trabalhadores por conta própria e empregadores com CNPJ por sexo — Foto: Arte g1

Sul tem maior proporção de trabalhadores com CNPJ

A cobertura de CNPJ também varia entre as regiões do país. Em 2025, o Sul apresentou a maior taxa, de 46,7%, seguido por Sudeste e Centro-Oeste, ambos com 41,6%. No Brasil, o percentual foi de 35%. As menores taxas foram registradas no Nordeste (20,1%) e no Norte (15,6%).

O Centro-Oeste teve o maior crescimento desde 2012: a proporção passou de 27,3% para 41,6%, alta de 14,3 pontos percentuais. No Sudeste e no Sul, o avanço foi de 11,2 pontos; no Nordeste, de 8,3 pontos; e no Norte, de 3,6 pontos.

  • ➡️Brasil: de 24,0% para 35,0% (+11,0 p.p.)
  • ➡️Centro-Oeste: de 27,3% para 41,6% (+14,3 p.p.), maior crescimento do período
  • ➡️Sul: de 35,5% para 46,7% (+11,2 p.p.), maior proporção do país em 2025
  • ➡️Sudeste: de 30,4% para 41,6% (+11,2 p.p.)
  • ➡️Nordeste: de 11,8% para 20,1% (+8,3 p.p.)
  • ➡️Norte: de 12,0% para 15,6% (+3,6 p.p.)

Comércio e serviços têm maiores taxas

Entre os trabalhadores por conta própria, a maior cobertura de CNPJ em 2025 foi registrada no comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas, com 36,7%.

Na sequência aparecem os serviços (33,5%), a indústria geral (22,8%) e a construção (14,8%). A menor taxa foi registrada na agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura, com 6,5%.

A construção apresentou um dos maiores avanços no período. A proporção de trabalhadores por conta própria com CNPJ passou de 3,9% em 2012 para 14,8% em 2025, alta de 10,9 pontos percentuais.

Trabalhadores por conta própria com CNPJ, por atividade (%)

Atividade 2012 (%) 2016 (%) 2019 (%) 2024 (%) 2025 (%)
Total 15 18,8 20,2 25,7 27,1
Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura 4,3 4,1 7,1 7,2 6,5
Indústria geral 13,8 17,1 18,1 23,4 22,8
Construção 3,9 7,4 10 15,2 14,8
Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas 25,8 28,3 28,7 33,2 36,7
Serviços 21,4 26,8 25,1 31,5 33,5

Entre os empregadores, o comércio também apresentou a maior cobertura, de 88,2%, seguido por serviços (86,4%) e indústria (84,3%). Na construção, a taxa foi de 58,2%.

A agricultura teve novamente a menor proporção, com 32,7% dos empregadores registrados no CNPJ.

A construção foi o segmento que mais avançou entre os empregadores: passou de 36,4% em 2012 para 58,2% em 2025, alta de 21,8 pontos percentuais.

Empregadores com CNPJ, por atividade (%)

Atividade 2012 (%) 2016 (%) 2019 (%) 2024 (%) 2025 (%)
Total 75,6 82,1 80,5 80 81,1
Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura 28,1 35,5 35 32,1 32,7
Indústria geral 80,7 88,9 83,1 83,4 84,3
Construção 36,4 57,8 54 55,7 58,2
Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas 88,9 89,5 89,7 88,9 88,2
Serviços 80,9 85,8 84,7 84,5 86,4

A cobertura também aumenta conforme o nível de instrução. Em 2025, 50,8% dos trabalhadores por conta própria com ensino superior completo tinham CNPJ, o maior percentual da série histórica e a primeira vez em que a taxa ultrapassou 50%.

Entre aqueles com ensino médio completo e superior incompleto, a proporção foi de 29,7%. Já entre os que tinham ensino fundamental completo e médio incompleto, ficou em 18,6%.

A menor taxa foi registrada entre trabalhadores sem instrução ou com ensino fundamental incompleto: 11,1%. A diferença entre os grupos de maior e menor escolaridade chegou a 39,7 pontos percentuais.

O crescimento também foi maior entre os trabalhadores com ensino superior. Em 2012, 42,5% desse grupo tinha CNPJ. Em 2025, eram 50,8%, avanço de 8,3 pontos percentuais.

Veja abaixo a evolução da formalização entre trabalhadores por conta própria, por escolaridade (2012-2025):

  • 🎓 Superior completo: de 42,5% para 50,8% (+8,3 p.p.), maior crescimento entre os níveis de instrução.
  • 📚 Ensino médio completo e superior incompleto: de 23,3% para 29,7% (+6,4 p.p.).
  • 🎒 Ensino fundamental completo e médio incompleto: de 13,2% para 18,6% (+5,4 p.p.).
  • ➡️ Sem instrução e fundamental incompleto: de 7,2% para 11,1% (+3,9 p.p.).

Trabalhadores por conta própria com CNPJ, por escolaridade (%)

Nível de instrução 2012 (%) 2019 (%) 2022 (%) 2024 (%) 2025 (%)
Total 15 20,2 26,2 25,7 27,1
Sem instrução e fundamental incompleto 7,2 9,9 12,9 11 11,1
Ensino fundamental completo e médio incompleto 13,2 15,8 19,5 18,9 18,6
Ensino médio completo e superior incompleto 23,3 24,8 30,8 29 29,7
Superior completo 42,5 42,3 49,3 48,4 50,8

Entre os empregadores, o padrão também aparece. Em 2025, 91,8% daqueles com ensino superior completo tinham CNPJ, contra 81,8% entre os que tinham ensino médio completo e superior incompleto.

A taxa foi de 70,7% entre empregadores com ensino fundamental completo e médio incompleto e de 52,7% entre aqueles sem instrução ou com ensino fundamental incompleto.

Empregadores com CNPJ, por escolaridade (%)

Nível de instrução 2012 (%) 2019 (%) 2022 (%) 2024 (%) 2025 (%)
Total 75,6 80,5 80,8 80 81,1
Sem instrução e fundamental incompleto 49,4 56 56,8 51,9 52,7
Ensino fundamental completo e médio incompleto 69,1 75,7 73,3 69,2 70,7
Ensino médio completo e superior incompleto 80,5 83,1 82,4 81,9 81,8
Superior completo 90,5 90,4 90,8 90,2 91,8

Segundo William Kratochwill, analista de pesquisas do IBGE, a relação entre escolaridade e registro no CNPJ está ligada ao próprio processo de estruturação dos negócios.

“Quanto maior o nível de instrução, mais preparada a pessoa está para o mercado e mais ela entende as vantagens e as dificuldades de ter ou não ter um registro. Isso pode facilitar as operações, a compreensão dos custos, a precificação e o funcionamento do negócio.”

Para ele, a baixa cobertura entre trabalhadores por conta própria também reflete o perfil de parte desse grupo, formado por pessoas que estão começando um empreendimento ou que passaram a trabalhar por conta própria após perder uma ocupação.

“À medida que essas pessoas adquirem conhecimento e o negócio se estrutura, elas podem passar da condição de conta própria para a de empregador, contratando outras pessoas e mudando de patamar”, afirma.

Kratochwill ressalta que, apesar do avanço, a proporção de trabalhadores por conta própria com CNPJ ainda é baixa.

“É óbvio que 27,1% é um valor baixo. O que se espera são valores bastante elevados, porque há uma série de benefícios e contribuições para a economia que o registro pode trazer.”

O pesquisador também afirma que a PNAD Contínua não permite identificar se o avanço dos registros está relacionado ao fenômeno da pejotização.

Na PNAD ainda não temos informações sobre pejotização que possam dar subsídio para uma afirmação desse tipo. É possível que o registro seja uma forma utilizada pelas empresas para reduzir custos, mas não temos elementos, nesta pesquisa, para afirmar que isso está acontecendo.
— William Kratochwill, analista de pesquisas do IBGE

Os dados do IBGE mostram que o crescimento da cobertura de CNPJ foi mais expressivo entre os trabalhadores por conta própria.

Nesse grupo, a taxa aumentou 12,1 pontos percentuais, de 15% em 2012 para 27,1% em 2025. Ainda assim, 72,9% dos trabalhadores por conta própria não tinham CNPJ no ano passado.

Entre os empregadores, a cobertura já era elevada no início da série e avançou 5,5 pontos percentuais, passando de 75,6% para 81,1%.

Empregadores e trabalhadores por conta própria com CNPJ (%) — Foto: Arte g1
Empregadores e trabalhadores por conta própria com CNPJ (%) — Foto: Arte g1

Os números mostram que o registro no CNPJ se tornou mais comum entre diferentes grupos de trabalhadores ao longo dos últimos 13 anos, mas permanece desigual conforme a região, a atividade econômica, o sexo e o nível de escolaridade.

A pesquisa mostra, portanto, um avanço do registro no CNPJ entre trabalhadores por conta própria e empregadores, mas também revela que a cobertura ainda é bastante desigual entre os diferentes perfis de trabalhadores.

Sair durante atestado ou gravar trend no trabalho pode dar justa causa? Entenda 
Sair durante atestado ou gravar trend no trabalho pode dar justa causa? Entenda 

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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Fazenda reduz previsão de crescimento da economia para 2% e cita alta do peso das dívidas das famílias

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Ministério também revisou para baixo a projeção de inflação para 2026, citando resultados recentes do IPCA e melhora das expectativas inflacionárias.
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Por Mariana Assis, g1 — Brasília

Postado em 22 de Setembro de 2.026 às 15h30m
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O Ministério da Fazenda revisou para baixo a projeção de crescimento da economia brasileira neste ano, de 2,3% para 2,0%, refletindo principalmente a desaceleração do setor de serviços, influenciada pelo comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas.

"A projeção para o setor de serviços caiu de 2,4% para 1,8% e a da indústria, de 2,1% para 1,7%, movimentos parcialmente compensados pela agropecuária, revisada de 1,8% para 2,8%. Nos serviços, a revisão decorre do carrego mais fraco deixado pelo primeiro semestre e da transmissão defasada da política monetária sobre a demanda doméstica", explica o governo no Boletim Macrofiscal, divulgado nesta terça-feira (22).

A publicação, divulgada bimestralmente, reúne projeções de curto e médio prazo para indicadores de atividade econômica e inflação utilizados no processo orçamentário da União.

"Ainda que o endividamento das famílias siga estável em proporção da renda, o comprometimento com o serviço da dívida atingiu o maior nível da série histórica no segundo trimestre, o que limita a conversão do avanço da massa de rendimentos em consumo", explica o ministério.

A pasta menciona ainda o desempenho da indústria, pressionada pelo custo do crédito e pela demanda mais fraca por bens de consumo, enquanto a atividade extrativa continua sustentando o setor.

Em sentido contrário, o mercado de trabalho segue amparando os segmentos ligados ao consumo das famílias, e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física eleva a renda disponível ao longo do segundo semestre, atenuando a desaceleração projetada.

As estimativas para a inflação em 2026 também foram revistas para baixo, passando de 5,1% para 4,9%.

🔎Desde o início de 2025, com a adoção do sistema de meta contínua, o objetivo é manter a inflação em 3%, sendo considerada dentro da meta se variar entre 1,50% e 4,50%.

Entre os fatores para a revisão, o ministério cita os resultados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho, que ficaram abaixo do projetado anteriormente, especialmente no grupo de alimentação no domicílio e, em menor medida, no de serviços.

"A revisão também incorpora a melhora das expectativas de inflação para 2026, a manutenção da taxa Selic em patamar contracionista ao longo do ano e a desaceleração esperada da atividade econômica no segundo semestre de 2026", acrescenta o documento.

Por outro lado, a projeção incorpora fatores de pressão inflacionária, como o fenômeno El Niño. A estimativa, porém, ainda não considera as medidas recentes relacionadas aos combustíveis.

No caso da gasolina, as alíquotas do PIS/Pasep e da Cofins foram reduzidas em R$ 0,63 por litro, em substituição à subvenção de R$ 0,44 por litro. Para o etanol hidratado, as duas contribuições foram zeradas, resultando em uma redução da carga tributária de R$ 0,19 por litro.

Segundo o ministério, a desoneração da gasolina e do etanol hidratado, sem considerar a subvenção ao diesel, tem potencial para reduzir o IPCA em aproximadamente 0,15 ponto percentual.

Economia brasileira. — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução
Economia brasileira. — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução

Projeções para 2027

Já para 2027, a projeção de crescimento da economia foi revisada de 2,5% para 2,3%, refletindo os efeitos da política monetária contracionista.

"O resultado apoia-se sobretudo nos efeitos defasados do ciclo de flexibilização monetária e na continuidade da expansão da indústria extrativa e das exportações associadas. A queda da Selic iniciada em 2026 transmite-se gradualmente ao crédito e à demanda doméstica, estimulando a indústria de transformação, a construção e os serviços mais cíclicos, segmentos mais sensíveis ao ciclo de juros."

A projeção para a inflação, por sua vez, foi revisada para cima, de 3,6% para 3,8%, refletindo os efeitos de um El Niño mais intenso sobre a safra do próximo ano.

"Além dos efeitos de segunda ordem do El Niño sobre as carnes, a possível reversão do ciclo pecuário, com maior retenção de fêmeas, gera um risco ainda maior de elevação dos preços desse item. Adicionalmente, foram incorporados ao cenário a recente aceleração do IPA-DI agropecuário, que aumenta o risco de repasse dos preços do atacado ao consumidor, além dos riscos associados ao choque de fertilizantes sobre a safra de 2027, decorrentes da intensificação do conflito no Oriente Médio. Para os anos seguintes, projeta-se a convergência da inflação para a meta", explica o ministério.

Conflito EUA x Irã

Em relação ao conflito entre Estados Unidos e Irã, o governo avalia que o choque deixou de ser pontual e passou a operar como condição persistente do cenário de energia.

Isso porque o acordo provisório não evoluiu para um acordo formal e o fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz permaneceu abaixo dos níveis anteriores ao conflito, ao mesmo tempo em que ataques no Mar Vermelho mantêm riscos sobre o estreito de Bab el-Mandeb.

Nesse cenário, a cotação para o petróleo Brent apresentou volatilidade expressiva, ultrapassando o patamar de U$100 por barril na primeira semana de setembro, em um momento em que os estoques mundiais têm se reduzido.

Esse é um dos motivos pelos quais a projeção para o preço médio do barril passou de US$ 79,2 para US$ 87,7 por barril, neste ano. Para 2027, também houve elevação, passando de US$ 71,0 para US$ 79,5.

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domingo, 20 de setembro de 2026

Preços mais altos, salários menores: como o clima extremo afeta o bolso das famílias no mundo todo

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Ondas de calor, secas e incêndios florestais já elevam preços, geram queda de produtividade, reduzem renda e pressionam economias. Entenda os custos invisíveis das mudanças climáticas.
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TOPO
Por Stuart Braun — São Paulo

Postado em 20 de Setembro de 2.026 às 06h00m
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Mudanças climáticas: um dos maiores desafios é de onde vai sair o dinheiro para ajudar a proteger florestas e reduzir a poluição — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução
Mudanças climáticas: um dos maiores desafios é de onde vai sair o dinheiro para ajudar a proteger florestas e reduzir a poluição — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução

Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados no planeta. Essa mudança climática se manifesta em eventos extremos, como ondas de calor e incêndios florestais. Mas menos evidentes são os preços mais altos e os salários menores associados a um mundo cada vez mais quente.

Segundo um estudo de 2026 da MIT Sloan School of Management e da UCLA School of Law, as mudanças climáticas já elevaram as despesas médias das famílias americanas em 900 dólares (cerca de R$ 4,6 mil) por ano, chegando a mais de 1,3 mil dólares em um de cada dez condados dos Estados Unidos.

Esses custos não existiriam em um mundo sem mudanças climáticas. Eles incluem o aumento dos seguros residenciais (em média 600 dólares mais caros), a elevação de impostos estaduais e federais devido aos custos de recuperação de desastres ou aos impactos da fumaça dos incêndios florestais sobre a saúde, por exemplo.

"A inação climática não é apenas um fracasso ambiental; ela funciona como um imposto sobre todas as famílias americanas", escreveram os pesquisadores. 
Como as mudanças climáticas afetam a renda

Um relatório de 2024 do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impactos Climáticos, na Alemanha, estimou que os danos das mudanças climáticas à agricultura, à infraestrutura e à saúde, bem como as perdas de produtividade, podem custar à economia mundial 38 trilhões de dólares por ano até 2050.

Mas de que forma os eventos climáticos extremos impulsionados pelas mudanças do clima já afetaram salários e orçamentos familiares?

"Se não conseguirmos descobrir quanto as mudanças climáticas já estão nos custando com os dados que temos, projetar o futuro se torna quase impossível", afirmou Derek Lemoine, professor de economia da Universidade do Arizona, que estimou uma redução de 12% na renda dos americanos à medida que as temperaturas globais aumentaram. A comparação é feita com um cenário sem mudanças climáticas.

Lemoine mostra como extremos de temperatura em um condado dos Estados Unidos estão provocando impactos econômicos em cascata em localidades distantes com clima mais ameno, devido à interconexão do comércio e das cadeias de suprimentos.

"Muitos estudos analisam as mudanças climáticas como se elas alterassem o clima em apenas um ano e em um único lugar por vez", disse Lemoine à DW.

Em vez disso, ele busca entender como, se uma onda de calor destruir plantações de milho em todo o território americano, outras indústrias que dependem desse milho, incluindo produtores de gado e de alimentos, serão afetadas à medida que a commodity se tornar mais escassa e mais cara.

"À medida que os custos [dos produtores afetados em toda a cadeia de suprimentos do milho] aumentam", disse Lemoine, "isso fará com que a renda de todos os que dependem deles diminua".

Os impactos do clima sobre o comércio também já são sentidos na Alemanha, onde os níveis recordes de baixa do rio Reno, a via navegável interior mais movimentada da Europa, podem reduzir em até 0,2% a produção econômica alemã no terceiro trimestre de 2026, observou o Instituto Kiel para a Economia Mundial em julho.

O clima seco prolongado associado às mudanças climáticas é o responsável, já que a capacidade de transporte caiu para apenas 15% em alguns trechos do rio que conecta o maior porto da Europa, em Roterdã, na Holanda, a grande parte do oeste da Alemanha.

Pressão sobre problemas econômicos já existentes

Um estudo australiano também analisa como mudanças climáticas amplas, e não apenas choques locais provocados por eventos extremos isolados, levaram gradualmente à queda da produtividade e da produção econômica.

Timothy Neal, pesquisador do Instituto para Risco e Resposta Climática da Universidade de New South Wales, na Austrália, foi coautor de um relatório que mostra que o aquecimento global reduziu a produção econômica do estado de NSW em cerca de 18% em média, o equivalente a 21.288 dólares australianos (cerca de R$ 80 mil) por pessoa em 2024.

"Os danos já foram bastante severos", disse Neal à DW, acrescentando que, em um cenário sem aquecimento global, os cidadãos teriam "preços mais baixos para os alimentos" e "menos pobreza".

O relatório menciona secas em partes de NSW em meados e no final da década de 2010 que reduziram a produtividade em todo o estado em até 10 bilhões de dólares australianos, devido à queda das colheitas e da renda agrícola, ao aumento dos custos da água e à maior dependência de assistência governamental.

Esses impactos financeiros se acumularam ao longo do tempo em toda a economia do estado, influenciando os custos de alimentos, seguros e manutenção de infraestrutura.

Nas palavras do relatório, esses efeitos também "agravam pressões econômicas já existentes e contribuem para ampliar as disparidades entre regiões", o que significa aumento da desigualdade de renda e riqueza.

Foto mostra a Rodovia 89 com árvores queimadas de um lado e árvores não queimadas do outro no local do incêndio Dixie, um incêndio florestal perto da cidade de Greenville, no estado da Califórnia, EUA, em 7 de agosto de 2021 — Foto: REUTERS/Fred Greaves
Foto mostra a Rodovia 89 com árvores queimadas de um lado e árvores não queimadas do outro no local do incêndio Dixie, um incêndio florestal perto da cidade de Greenville, no estado da Califórnia, EUA, em 7 de agosto de 2021 — Foto: REUTERS/Fred Greaves

A adaptação climática pode limitar os custos?

"A ação climática não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, mas também como uma decisão economicamente sensata", afirmou Frank Jotzo, economista e comissário da Comissão Net Zero de NSW, que trabalha para descarbonizar o estado e encomendou o estudo citado acima.

Ao se referir a "investimentos defensivos contra as mudanças climáticas", como o reforço de estradas, ferrovias e infraestrutura de transporte marítimo para adaptação a um mundo mais quente, Jotzo acrescentou que "se não fosse pelas mudanças climáticas, poderíamos estar investindo esse dinheiro e esse esforço em outras coisas".

No entanto, medidas de adaptação, como a ampliação das áreas verdes nas cidades para reduzir os efeitos das ilhas de calor, serão fundamentais para evitar impactos econômicos muito mais severos no futuro.

As ondas de calor europeias de 2026, por exemplo, já custaram cerca de 180 bilhões de euros (R$ 1,06 trilhão), valor equivalente a todo o crescimento econômico projetado para a União Europeia neste ano, segundo uma análise.

A adaptação também envolverá o fortalecimento do sistemas de saúde e da rede hospitalar para enfrentar os efeitos das ondas de calor, que reduzem a produtividade à medida que trabalhadores submetidos ao estresse térmico se cansam mais rapidamente ou têm dificuldade para dormir, observou Jotzo.

Mas Lemoine afirma que a adaptação ao declínio econômico provocado pelas mudanças climáticas é tão "cara por si só" que pode agravar a perda de renda e ser ineficaz se não for implementada de forma abrangente.

Somente quando "todos os lugares" estiverem protegidos dos eventos climáticos extremos, será possível enfrentar os impactos econômicos em cascata, diz ele.

Ainda assim, tanto a adaptação quanto uma rápida redução das emissões que aquecem o planeta são necessárias para evitar perdas de renda impulsionadas pelas mudanças climáticas, que tendem a se agravar se o aquecimento global ultrapassar as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.

"Mudanças climáticas sem controle criariam um peso permanente sobre os salários e a produtividade", concluiu Jotzo.

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