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Pesquisa com 321 ocupações nos EUA encontrou crescimento salarial 6,7 pontos percentuais menor entre profissionais mais expostos à tecnologia, mas não identificou efeito significativo sobre o emprego.
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Por Rafaela Zem, g1 — São Paulo
Postado em 23 de Agosto de 2.024 às 06h00m
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Veja as 10 profissões mais valorizadas da tecnologia
O receio mais comum sobre a inteligência artificial é que ela elimine empregos. Mas um novo estudo sugere que o primeiro grande impacto da tecnologia pode estar acontecendo de forma mais discreta: os trabalhadores continuam empregados, mas seus salários passam a crescer mais devagar.
A conclusão é de uma pesquisa da gestora americana Apollo Global Management. O estudo analisou dados de salários, emprego e uso real de inteligência artificial em 321 ocupações dos Estados Unidos.
Segundo os pesquisadores, profissionais de áreas mais expostas à IA tiveram crescimento salarial 6,7 pontos percentuais menor do que trabalhadores de ocupações menos expostas após a popularização de ferramentas como ChatGPT e Claude.
O levantamento não encontrou evidências estatisticamente significativas de destruição de empregos nas ocupações mais expostas. O impacto aparece, até agora, na evolução dos salários e é ainda mais forte entre os trabalhadores de menor renda. Nesse grupo, a perda relativa no crescimento salarial chegou a 10,7%.
- 🔎 O estudo não afirma que os salários dessas profissões necessariamente diminuíram. O que os pesquisadores identificaram foi que eles passaram a crescer em ritmo menor do que os salários observados em ocupações menos expostas à inteligência artificial.
Essas não são necessariamente as profissões que mais perderam vagas, mas aquelas em que a inteligência artificial já é usada para executar uma parcela relevante das tarefas do dia a dia. Ou seja: são ocupações nas quais a IA já passou a fazer parte da rotina de trabalho.
A pesquisa identificou 11 ocupações com índice de exposição igual ou superior a 0,5, patamar considerado de alta exposição pelos pesquisadores.
São elas:
- Programadores (0,75)
- Atendentes de customer service (0,70)
- Digitadores e profissionais de entrada de dados (data entry) (0,67)
- Especialistas em prontuários médicos (0,67)
- Analistas de mercado e marketing (0,65)
- Transcritores médicos (0,64)
- Representantes de vendas não técnicas (0,63)
- Arquitetos de banco de dados (0,58)
- Analistas financeiros e de investimentos (0,57)
- Analistas e testadores de qualidade de software (QA) (0,52)
- Assistentes estatísticos (0,51)
📎 A exposição foi calculada a partir do Anthropic Economic Index, indicador criado com base em milhões de interações reais de usuários com o Claude, modelo de IA desenvolvido pela Anthropic. Quanto maior a pontuação, maior a proporção de tarefas daquela profissão que já aparece sendo realizada com auxílio da tecnologia.
O ranking revela um padrão claro: quase todas essas ocupações trabalham predominantemente com informações, documentos, textos, análise de dados, atendimento ou produção de conhecimento. São atividades nas quais ferramentas de IA conseguem auxiliar diretamente na execução das tarefas.
Isso ajuda a explicar por que ocupações baseadas em processamento de informação aparecem muito acima de profissões ligadas a atividades físicas, como construção civil, indústria, manutenção ou serviços manuais.
Exposição não significa perda de emprego
Embora as ocupações acima liderem o ranking de exposição, isso não significa que sejam as mais prejudicadas pelo avanço da inteligência artificial.
O desempenho do emprego e dos salários depende de uma combinação muito mais ampla de fatores, como produtividade, demanda por trabalhadores, escassez de mão de obra, crescimento do setor e qualificação exigida.
Entre as ocupações mais expostas, algumas registraram aumento de emprego, outras perderam trabalhadores. Algumas tiveram crescimento salarial e outras apresentaram queda.
- Os analistas financeiros e de investimentos, por exemplo, aparecem entre as profissões mais expostas à IA, mas tiveram crescimento de 16,9% no emprego entre 2022 e 2024.
- Já os programadores lideram o ranking de exposição e registraram queda de 17,2% no número de trabalhadores e redução salarial real de 6,1% no período.
Quando a análise passa dos níveis de exposição para os salários efetivamente observados, o ranking muda completamente.
As maiores perdas salariais registradas entre 2022 e 2024 foram:
- Locutores de rádio e DJs (-52,1%)
- Técnicos de radiodifusão (-29,5%)
- Diretores musicais e compositores (-17,8%)
- Técnicos de instrumentos de precisão (-15,0%)
- Árbitros e mediadores (-14,1%)
- Artesãos (-14,1%)
- Psicólogos organizacionais (-13,4%)
- Juízes e magistrados (-13,3%)
- Escritores e autores (-12,7%)
- Legisladores (-11,7%)
É importante destacar que esses números não significam que a IA foi responsável pelas perdas salariais. A queda pode ter sido influenciada por fatores específicos de cada setor, mudanças econômicas, transformações tecnológicas ou alterações na demanda por profissionais.
O mesmo acontece quando a análise considera apenas a variação no emprego.
As maiores reduções observadas foram:
- Vendedores porta a porta e jornaleiros (-46,9%)
- Fabricantes de moldes em madeira (-45,5%)
- Artistas de efeitos especiais e animadores (-40,9%)
- Legisladores (-38,2%)
- Técnicos de instrumentos de precisão (-37,8%)
- Coreógrafos (-36,5%)
- Técnicos de radiodifusão (-36,2%)
- Operadores de telemarketing (-31,2%)
- Entrevistadores de crédito (-28,7%)
- Astrônomos (-27,8%)
A principal conclusão dos autores não veio da análise individual de cada profissão, mas de um modelo estatístico que comparou grupos de ocupações mais e menos expostas antes e depois da popularização da IA generativa.
Foi nessa comparação que os pesquisadores encontraram evidências de que ocupações altamente expostas apresentaram crescimento salarial mais fraco do que o restante do mercado de trabalho.
O efeito foi particularmente intenso nas ocupações de menor remuneração, enquanto trabalhadores do topo da distribuição salarial não apresentaram resultado estatisticamente significativo. Já para emprego, não foi identificado efeito significativo associado à exposição à IA.
Por isso, os autores argumentam que o primeiro impacto mensurável da inteligência artificial pode estar sendo a chamada "compressão salarial" — situação em que os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia não se traduzem necessariamente em aumentos equivalentes para os trabalhadores.
Apesar dos resultados, os próprios autores fazem uma série de ressalvas.
- A medida de exposição foi construída com base nos dados da Anthropic, e não inclui necessariamente todo o uso de ferramentas como ChatGPT, Gemini ou sistemas corporativos próprios.
- Além disso, apenas 321 ocupações puderam ser cruzadas entre as bases utilizadas, e o período analisado após o surgimento da IA generativa ainda é relativamente curto.
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programador de sistemas — Foto: Sora Shimazaki/Pexels



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