Mesmo com as
negociações com o Irã em andamento, os militares dos EUA estão
prosseguindo com um significativo aumento de recursos aéreos e navais no
Oriente Médio.
O presidente dos EUA, Donald Trump, insinuou uma mudança de regime e alertou que poderia atacar o Irã, alimentando temores de uma guerra mais ampla.
Apesar de
ter sido significativamente enfraquecido pelos ataques israelenses e
americanos no ano passado e pela crescente agitação interna recente, o
regime iraniano mantém uma série de opções de retaliação, segundo
especialistas.
Dentre elas,
o país considera desde atacar interesses dos EUA e de Israel até
mobilizar grupos aliados e buscar perturbações econômicas que poderiam
desencadear uma crise global.
A forma como Teerã escolherá usar as ferramentas à sua disposição dependerá do nível de ameaça que perceber estar enfrentando.
“O regime
tem muitas capacidades para usar se encarar isso como uma guerra
existencial”, disse Farzin Nadimi, pesquisador sênior do Washington
Institute especializado em segurança e defesa do Irã.
"Se eles encararem isso como uma guerra final, poderão usar todos os seus recursos", completou.
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Acredita-se
que o Irã possua milhares de mísseis e drones ao alcance das tropas
americanas estacionadas em diversos países do Oriente Médio e ameaçou
atacá-las, assim como Israel.
Em junho do
ano passado, após Israel lançar um ataque surpresa contra o Irã, a
República Islâmica retaliou disparando onda após onda de mísseis
balísticos e drones contra o país, causando danos ao contornar as
sofisticadas defesas aéreas israelenses.
Autoridades
iranianas afirmam que grande parte dos estoques usados naquela guerra
foi reabastecida, e autoridades americanas acreditam que essas armas
testadas em combate, assim como os antigos caças russos e americanos,
continuam a representar uma ameaça.
O drone
suicida Shahed do Irã, por exemplo, provou ser uma ferramenta destrutiva
na guerra da Rússia na Ucrânia. O regime iraniano também desenvolveu,
testou ou implantou mais de 20 tipos de mísseis balísticos, incluindo
sistemas de curto, médio e longo alcance capazes de atingir alvos até
mesmo no sul da Europa.

Drones
de ataque Shahed em um caminhão sem identificação em uma exposição da
Guarda Revolucionária Iraniana em Teerã, Irã, em 1º de maio de 2024 •
Fred Pleitgen/CNN
“Temos de 30
a 40 mil soldados americanos estacionados em oito ou nove instalações
naquela região”, disse o secretário de Estado americano, Marco Rubio, no
mês passado. “Todos estão ao alcance de uma série de milhares de drones
iranianos e mísseis balísticos iranianos (de curto alcance) que ameaçam
nossa presença militar.”
Dois oficiais americanos disseram à CNN
que as capacidades militares de Teerã, mesmo que em número muito
inferior e muito mais antigas do que os modernos sistemas americanos,
tornam um ataque decisivo dos EUA contra o país muito mais difícil.
Teerã tem repetidamente alertado que retaliaria contra os aliados dos EUA na região caso fosse atacada.
Quando bombardeiros americanos atacaram instalações nucleares iranianas
no verão, o Irã lançou um ataque com mísseis sem precedentes no Catar,
visando a Base Aérea de Al-Udeid, a maior instalação militar americana
no Oriente Médio.
Mobilizando grupos de apoio
Nos últimos
dois anos, Israel tem atacado a rede regional de grupos apoiados pelo
Irã, reduzindo significativamente a capacidade do regime de projetar
poder além das fronteiras.
Ainda assim,
esses grupos juraram defender a República Islâmica. Grupos iraquianos
como o Kataeb Hezbollah e o Harakat al-Nujaba — milícias que já atacaram
forças americanas no passado —, bem como o libanês Hezbollah, afirmaram
que prestarão auxílio ao Irã caso seja atacado.
No mês
passado, Abu Hussein al-Hamidawi, comandante do Kataeb Hezbollah,
convocou os lealistas do Irã “em todo o mundo… a se prepararem para uma
guerra total em apoio à República Islâmica”.
Apesar das
ameaças, os grupos apoiados pelo Irã enfrentam limitações. No Líbano, o
outrora formidável Hezbollah foi significativamente enfraquecido após 13
meses de conflito com Israel e agora enfrenta uma campanha interna de
desarmamento.
No Iraque,
as milícias apoiadas pelo Irã são poderosas, mas também enfrentam
obstáculos impostos por um governo central que sofre crescente pressão
dos EUA para conter a influência iraniana.
Os Houthis
no Iêmen tem sido alvo tanto de Israel quanto dos EUA, mas continua
sendo um dos representantes mais destrutivos do Irã e já indicou que
defenderá seu patrono.
No final de
janeiro, os Houthis divulgaram um vídeo mostrando imagens de um navio em
chamas, acompanhado da simples legenda: "Em breve".
Com o apoio
iraniano nos últimos anos, o grupo atacou a Arábia Saudita, os Emirados
Árabes Unidos e Israel, bem como navios americanos no Mar Vermelho.
Guerra econômica
O Irã
alertou repetidamente que uma guerra contra ele não se limitaria ao
Oriente Médio, mas enviaria ondas de choque por todo o mundo. Embora
militarmente inferior, Teerã tem vantagem em sua capacidade de perturbar
os mercados de energia e o comércio global a partir de uma das regiões
mais estrategicamente sensíveis do mundo.
O Irã, um dos maiores produtores de energia do mundo, está situado no Estreito de Ormuz, uma passagem marítima por onde fluem mais de um quinto do petróleo mundial e grande parte do gás natural liquefeito.

Estreito de Ormuz - Irã • Arte: CNN Brasil
O regime
ameaçou fechá-lo caso seja atacado — uma perspectiva que, segundo
especialistas, poderia fazer os preços dos combustíveis dispararem muito
além das fronteiras do Irã e desencadear uma recessão econômica global.
Especialistas
afirmam que atacar a economia global através do estreito pode ser uma
das opções mais eficazes do Irã. É também a mais perigosa devido ao seu
amplo impacto.
Um
fechamento prolongado do estreito representaria um “cenário perigoso”,
disse Umud Shokri, estrategista de energia baseado em Washington, D.C. e
pesquisador visitante sênior da Universidade George Mason.
“Mesmo
interrupções parciais poderiam provocar aumentos acentuados nos preços,
interromper as cadeias de suprimentos e amplificar a inflação mundial.
Em tal cenário, uma recessão global seria um risco real", acrescentou
Shokri.
Tal medida
provavelmente seria o último recurso do Irã, pois prejudicaria
gravemente o próprio comércio e o de países árabes vizinhos, muitos dos
quais pressionaram Trump contra um ataque e prometeram não permitir que
Washington acesse seu território para um ataque iraniano.
O Irã afirma
ter bases navais subterrâneas ao longo da costa do país, com dezenas de
lanchas de ataque rápidas prontas para serem mobilizadas nas águas do
Golfo Pérsico.
As forças
armadas passaram três décadas construindo sua própria frota de navios e
submarinos, com a produção intensificada nos últimos anos em antecipação
a um possível confronto naval.
O
vice-almirante aposentado Robert Harward, ex-SEAL da Marinha dos EUA e
vice-comandante do Comando Central dos EUA, afirmou que as capacidades
navais iranianas e seus aliados representam um desafio para a navegação
no Estreito de Ormuz, que “pode ser resolvido muito rapidamente”.
Mas
ferramentas “assimétricas”, como minas, drones e outras táticas, podem
representar um desafio para a navegação e o fluxo de petróleo, disse
ele.
A capacidade do Irã de interromper o transporte marítimo global e abalar a economia mundial tem precedentes históricos.
No final de
uma longa guerra com o Iraque, na década de 1980, o Irã instalou minas
marítimas no Golfo Pérsico, inclusive perto do estreito, uma das quais
quase afundou o navio USS Samuel B. Roberts em 1988, enquanto este
escoltava petroleiros kuwaitianos durante o que ficou conhecido como a
"Guerra dos Petroleiros".
Em 2019,
vários petroleiros foram atingidos no Golfo de Omã durante o aumento das
tensões entre o Irã e as nações árabes do Golfo, após a retirada de
Trump do acordo nuclear com o Irã. Acredita-se amplamente que o Irã
tenha sido o responsável.
Mais
recentemente, durante a guerra entre Israel e Hamas, os houthis
interromperam o transporte marítimo comercial no Estreito de Bab
el-Mandeb, no Mar Vermelho, por onde passa cerca de 10% do comércio
marítimo mundial.
Juntamente
com a capacidade do Irã de ameaçar o tráfego pelo Estreito de Ormuz,
Teerã exerce um poder desproporcional para infligir prejuízos econômicos
globais.
“A próxima
guerra pode começar não no centro de Teerã, mas no Estreito de Ormuz e
no Golfo Pérsico”, disse Nadimi, do Instituto de Washington.