Troca de ataques entre os dois países elevou o risco de interrupções na oferta global de petróleo e impulsionou os preços da commodity nesta segunda-feira (13). --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Por Reuters
Postado em 13 de Julho de 2.026 às 09h50m .$.# Postagem - Nº 1.258#.$.
EUA lançam novos ataques contra o Irã
Os preços do petróleo subiam mais de 3% nesta segunda-feira (13), refletindo a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã.
Por volta das 7h47 (horário de Brasília), o petróleo Brent, referência internacional, avançava 3,1%, cotado a US$ 78,44 o barril. Já o WTI, referência nos Estados Unidos, subia 3,2%, para US$ 73,71.
O Estreito de Ormuz concentra cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo. Qualquer interrupção na navegação pela região aumenta o risco de problemas no abastecimento global e costuma pressionar os preços da commodity.
A escalada das tensões também aumentou a aversão ao risco nos mercados financeiros. Investidores reduziram a exposição a ativos considerados mais arriscados e buscaram proteção em aplicações vistas como mais seguras, como o dólar.
Mercados globais
Na Ásia, as bolsas fecharam sem direção única. O índice de Xangai caiu 2,06%, aos 3.913 pontos, atingindo o menor nível em três meses.
O CSI300, que reúne as maiores empresas listadas em Xangai e Shenzhen, recuou 1,79%, aos 4.695 pontos. Já o Hang Seng, de Hong Kong, avançou 0,16%, aos 24.213 pontos.
Entre os demais mercados da região, o Nikkei, do Japão, caiu 1,92%, aos 67.242 pontos;
Kospi, da Coreia do Sul, recuou 0,95%, aos 6.806 pontos;
Straits Times, de Cingapura, perdeu 0,11%, aos 5.463 pontos;
Taiex, de Taiwan, subiu 0,06%, aos 45.380 pontos;
S&P/ASX 200, da Austrália, avançou 0,03%, aos 8.808 pontos.
Dólar oscila com tensão no Oriente Médio
O dólar oscilou nesta segunda-feira após a retomada dos confrontos no Golfo. A moeda americana chegou a subir no início do pregão, acompanhando a alta do petróleo, mas perdeu força com os investidores avaliando os impactos do conflito.
O índice do dólar, que mede o desempenho da moeda americana contra uma cesta de seis moedas, chegou a avançar 0,3%, mas encerrou o dia em queda de 0,2%, aos 100,83 pontos.
Entre as principais moedas:
Euro: alta de 0,15%, para US$ 1,1433;
Libra esterlina: estável, a US$ 1,339;
Dólar australiano: queda de 0,1%, para US$ 0,694;
Dólar contra o iene: alta de 0,2%, para 162,05 ienes.
A desvalorização do iene voltou a chamar atenção dos investidores, diante da possibilidade de uma intervenção das autoridades japonesas para conter a queda da moeda.
Entenda a escalada do conflito
A reação dos mercados ocorreu após uma nova troca de ataques entre EUA e Irã. Segundo a Guarda Revolucionária iraniana, forças do país atingiram bases militares americanas no Barein e no Kuweit, além de alvos na Jordânia e em Omã.
Em resposta, as Forças Armadas dos EUA afirmaram ter atacado sistemas de defesa aérea, radares, mísseis, drones e embarcações iranianas.
A escalada militar colocou em dúvida um acordo provisório firmado entre Washington e Teerã no mês passado, que previa a reabertura do Estreito de Ormuz e uma redução das tensões após semanas de negociações.
Em entrevista à Reuters, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que considera o cessar-fogo encerrado, mas disse que ainda vê espaço para novas negociações.
Do lado iraniano, o presidente do Parlamento e principal negociador do país, Mohammad Baqer Qalibaf, adotou um tom duro. Em publicação na rede social X, afirmou que "a era dos acordos unilaterais acabou" e cobrou que os EUA cumpram os compromissos assumidos.
A guerra entre EUA, Israel e Irã, iniciada em 28 de fevereiro, ampliou a instabilidade no Oriente Médio e levou Teerã a atacar bases militares americanas em diferentes países da região. O conflito já deixou milhares de mortos, principalmente no Irã e no Líbano.
Em comunicado divulgado nesta segunda-feira, a Guarda Revolucionária afirmou que o tráfego normal de navios pelo Estreito de Ormuz só será restabelecido quando os EUA encerrarem as operações militares na região. O grupo alertou que novos confrontos podem provocar impactos ainda maiores no mercado global de petróleo e gás.
O governo iraniano informou ainda que tenta negociar com Omã um mecanismo para administrar a passagem de embarcações pelo estreito, mas disse que as conversas têm sido dificultadas pela pressão americana.
A alta do petróleo aumenta a preocupação com uma possível elevação dos preços dos combustíveis e da inflação em diversos países, caso o conflito se prolongue e afete a oferta global da commodity.
*Com informações da Reuters
Bombas de extração de petróleo, Irã, Oriente Médio — Foto: Reuters
Dieter Schwarz, de 86 anos, que fez fortuna com rede de supermercados Lidl, está investindo em data centers e IA. Tudo para diminuir dependência digital da Europa em relação aos EUA. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Por Deutsche Welle 12/07/2026 04h00 Atualizado há 03 horas Postado em 12 de Julho de 2.026 às 07h00m .$.# Postagem - Nº 1.257#.$.
Com o Innovation Park Artificial Intelligence (IPAI), Heilbronn quer competir com outros centros tecnológicos, como Londres. — Foto: Nicolas Martin/DW
Quando o empresário Bernd Wagner caminha pela nova sede da empresa, fica entusiasmado e diz coisas como "sete vezes mais aço do que foi utilizado na construção da Torre Eiffel" ou "cabos suficientes para ir daqui até Nápoles".
Wagner é o responsável pela área de computação em nuvem e vendas da Schwarz Digits. Essas enormes quantidades de aço e cabos foram empregadas na construção da nova sede, que será oficialmente inaugurada em 21 de julho de 2026.
O complexo, projetado para 3.500 funcionários e equipado com creche, restaurante e área fitness, lembra as sedes da Amazon, da Apple ou da Google: localizado numa elevação, é composto por cinco edifícios de vidro de vários andares, com formas suavemente curvas e estrutura em formato de colmeia. No centro do chamado Campus Schwarz Digits, há um pequeno lago, muito verde e bancos à sombra.
"Isso aqui é uma declaração de intenções. Não precisamos nos esconder da Google nem de ninguém", afirma Wagner.
Dos supermercados para a TI
Essa sede não fica na Califórnia, mas em Bad Friedrichshall, uma pequena cidade no sul da Alemanha, a poucos quilômetros de Heilbronn, a cidade natal daquele que é apontado por revistas especializadas como o homem mais rico da Alemanha: Dieter Schwarz, de 86 anos.
Foi a partir de Heilbronn que ele construiu o império Lidl, uma das redes de supermercados mais conhecidas da Alemanha e presente em vários países da Europa. Mais de 600 mil pessoas trabalham em empresas do Grupo Schwarz em todo o mundo.
'Não precisamos nos esconder da Google nem de ninguém', afirma Wagner. — Foto: Nicolas Martin/DW
O conglomerado cresceu sobretudo graças às redes de supermercados Lidl e Kaufland. Mas, como o Grupo Schwarz prefere fazer tudo por conta própria, expandiu-se para diversas áreas: produção de alimentos, gestão de resíduos, reciclagem e, agora, digitalização.
Em 2025, o Grupo Schwarz registrou umfaturamento de quase 185 bilhões de euros – mais do que SAP, Mercedes ou Bayer. Só a montadora Volkswagen faturou mais entre as empresas alemãs.
Europa sem dependência tecnológica
O Grupo Schwarz sempre foi conhecido pela discrição. Quase nunca se fala sobre seu fundador, Dieter Schwarz. Há poucas fotografias públicas dele. Diz-se que ele consegue andar por Heilbronn sem ser reconhecido.
"Se você não está sentado à mesa, acaba fazendo parte do cardápio", diz Wagner em seu escritório climatizado.
Se nos últimos anos a Schwarz Digits cuidou sobretudo dainfraestrutura de TIdos 14.500 supermercados do grupo ao redor do mundo, agora oferece seus serviços de nuvem e segurança digital também para empresas privadas e órgãos públicos.
Segundo Wagner, o objetivo é fazer com que Alemanha e Europa voltem a ter protagonismo e deixem de depender totalmente das tecnologias dos Estados Unidos ou da China. "Queremos devolver à Europa sua capacidade de agir", afirma.
Esse posicionamento está dando resultados. Nos últimos tempos, a empresa vem conquistando grandes contratos. Entre seus clientes e parceiros estão o governo da Holanda, ministérios alemães e a Federação Alemã de Futebol (DFB).
Na região de Spreewald, ao sul de Berlim, a Schwarz Digits está construindo um centro de dados. Ao custo de 11 bilhões de euros, trata-se do maior investimento individual da história do grupo.
O valor investido na nova sede em Bad Friedrichshall não foi divulgado. O que se sabe é que a instalação foi concebida para manter os talentos de TI na Alemanha e até mesmo atrair novos profissionais. A mensagem é clara: por que se mudar para o caro Vale do Silício se é possível trabalhar num setor do futuro no sul da Alemanha?
Heilbronn se transforma
Quem passeia por Heilbronn vê claramente como a cidade está formando os seus talentos. Um exemplo é o campus educacional da Fundação Dieter Schwarz, onde diversas instituições de ensino e pesquisa alemãs formam cerca de 8 mil estudantes. A expectativa é de que o número ainda vá crescer significativamente.
Nas proximidades está o Experimenta, que se apresenta como o maior centro de ciência da Alemanha e virou símbolo da cidade e atração turística. Lá os visitantes podem vivenciar na prática tecnologias e aplicações de inteligência artificial.
O prefeito de Heilbronn, Harry Mergel, participou da iniciativa que levou à construção do Experimenta há cerca de 20 anos. Uma das principais financiadoras do projeto foi justamente a Fundação Dieter Schwarz.
Mergel é prefeito da cidade, que tem mais de 130 mil habitantes, desde 2014. Assim como muitos outros, ele evita falar muito sobre o mecenas que não deixou sua terra natal. "Toda pessoa tem direito ao anonimato", diz.
O megaprojeto de IA
A transformação da cidade já é visível. Heilbronn, que os próprios moradores às vezes chamavam de forma autodepreciativa de "Heilbronx", aparece hoje em alguns rankings como a cidade com o maior poder de compra da Alemanha.
O crescente número de moradores vindos da Índia e da China também indica que empregos em tecnologia da informação estão atraindo profissionais para a região.
Além disso, há um megaprojeto que deverá tornar a cidade ainda mais conhecida internacionalmente nos próximos anos: o Innovation Park Artificial Intelligence (IPAI).
Com esse parque de inovação em inteligência artificial, Heilbronn pretende competir com centros tecnológicos como Londres e Paris.
A expectativa é que até 5 mil pessoas trabalhem e pesquisem no complexo localizado nos arredores da cidade. Os primeiros edifícios serão inaugurados em 2027. Mais uma vez, tanto a Fundação Dieter Schwarz quanto o Grupo Schwarz desempenham um papel central no projeto.
Os custos não foram divulgados, mas o IPAI já opera como rede de colaboradores desde 2022, e cerca de 140 empresas e parceiros desenvolvem projetos relacionados à inteligência artificial. Mergel, cujo mandato vai até 2030, é taxativo: "O futuro está sendo construído em Heilbronn".
Para Laura Carvalho, mudança das aspirações de consumo e frustração de uma geração escolarizada que não encontra empregos compatíveis são chave para entender descontentamento da população. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Por BBC 11/07/2026 03h00 Atualizado há 04 horas Postado em 11 de Julho de 2.026 às 07h00m .$.# Postagem - Nº 1.256#.$.
'Debate tem que avançar no próximo período para alguma forma de taxação
de riqueza', defende professora Laura Carvalho, da FEA-USP e membro do
'Conselhão' de Lula — Foto: Arquivo pessoal via BBC
O desemprego está nas mínimas históricas (em 5,6% em maio deste ano,
menor patamar para o mês desde o início da série histórica), a economia
cresce acima das expectativas — 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em
2025 — e 17,5 milhões de brasileiros saíram da pobreza entre 2022 e
2024.
Ainda assim, 44% dos entrevistados na pesquisa Genial/Quaest de junho
afirmam que a economia do país piorou nos últimos 12 meses, enquanto
apenas 20% dizem que melhorou.
A economista Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia,
Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e
membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o
"Conselhão" de Lula, tem se dedicado a entender esse descolamento.
Como parte desse esforço, ela lançou recentemente o artigo "Paradoxos
do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção
sobre a economia", em coautoria com seu marido e também economista
Guilherme Klein Martins, professor da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ).
Para a dupla de economistas, quatro fatores principais estariam por
trás desse descompasso: a inflação e seus efeitos persistentes sobre o
bem-estar; a comparação com o ciclo de mobilidade social dos anos 2000,
durante os dois primeiros governos Lula; a mudança nos desejos de
consumo da população, impulsionada em grande medida pelas redes sociais;
e a frustração de uma geração escolarizada que não encontra empregos
compatíveis com a sua formação.
"Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil", observa Carvalho, em entrevista à BBC News Brasil.
"Você
não só está vendo o que consome uma pessoa no seu bairro, na sua
família, você está vendo o que consome uma pessoa da classe média
europeia ou um rico no seu país. E então os desejos, as aspirações, vão
se homogeneizando e se globalizando de uma forma muito rápida e única na
história, com uma sensação de insatisfação saindo daí", afirma.
Para a professora da USP, esse é um dos fatores que talvez expliquem a
diferença entre o sentimento da população nos anos 2000, durante os
governos Lula 1 e 2, e no atual governo.
"Ali nos anos 2000, a distribuição de renda na base da pirâmide e o
crescimento econômico expressivo incluíram uma parte da população no
mercado consumidor que estava totalmente excluída desse mercado. Que
passou a ter acesso a geladeira, a viagem de avião. Surgiu uma nova
classe média, que hoje já não é mais satisfeita com esse mesmo padrão de
consumo", diz Carvalho.
Também diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Open Society
Foundation, Laura Carvalho lançou em 2018 o livro Valsa Brasileira, em
que analisou os motivos que levaram a economia do país da prosperidade
(2006-2010) a uma das piores recessões de sua história (2014-2017).
Na entrevista à BBC News Brasil, a economista analisa por que a
desigualdade no Brasil segue sendo uma das maiores do mundo, mesmo
diante do elevado gasto do governo com políticas sociais nos últimos
anos. E propõe uma agenda para devolver o país a um novo ciclo de
prosperidade.
Segundo ela, isso passa por uma expansão dos serviços públicos e
diversificação da economia para gerar empregos qualificados para
absorver a crescente população escolarizada. Mas também pelo avanço da
agenda de tributação, iniciada com a reforma do Imposto de Renda.
"O debate tem que avançar no próximo período para alguma forma de taxação de riqueza", defende.
"A
concentração de riqueza é mais elevada do que a da renda, o que faz com
que a desigualdade se perpetue — e ela se perpetua também no sistema
político. Porque a influência daqueles que estão nesse topo [de renda] é
muito desproporcional e, com isso, atua para preservar a estrutura
atual."
Carvalho destaca ainda o papel da dívida pública na perpetuação desse
topo de riqueza. "O Estado brasileiro, por meio da dívida pública
elevada, que paga juros muito altos, acaba transferindo renda para os
mais ricos e atuando para perpetuar essa desigualdade elevada", afirma.
"Hoje, muitos dos detentores da dívida são pessoas de alto patrimônio e
que, sem muito risco envolvido, obtêm esses rendimentos elevados. Isso
significa, sim, que o governo transfere renda para os mais ricos.
Inclusive, me parece que o custo distributivo da dívida é algo que a
gente não fala muito", problematiza.
Confira os principais trechos da entrevista.
BBC
News Brasil - O World Inequality Report 2026, divulgado no fim do ano
passado pelo grupo de economistas ligados ao [economista francês Thomas]
Piketty, mostrou que a desigualdade no Brasil segue entre as mais altas
do mundo, e inclusive cresceu entre 2014 e 2024. Na sua visão, o que
explica essa persistência da desigualdade no país, mesmo diante do
elevado gasto do governo com políticas sociais nos últimos anos?
Laura Carvalho
- Esse é o padrão da desigualdade brasileira, aliás, da América Latina.
É uma das regiões mais desiguais do mundo e essa desigualdade é
caracterizada por uma concentração muito alta da renda no topo da
pirâmide — da renda e do patrimônio.
Já a desigualdade entre o meio e a base da pirâmide é relativamente
pequena no Brasil. Conseguimos, inclusive, reduzir muito a desigualdade
entre o meio e a base, com os programas sociais, com a valorização do
salário mínimo, com o próprio dinamismo do mercado de trabalho, que vem
acompanhado de crescimento do emprego, sobretudo para trabalhadores
menos escolarizados.
Então, toda a redistribuição que a gente teve nos anos 2000 se deu
entre esse meio e a base, onde a desigualdade já não era tão alta. Mas a
desigualdade entre o topo e o meio não foi reduzida, ela se manteve
elevada ao longo das últimas décadas.
A primeira vez que começamos a atacar essa característica, na verdade,
foi agora, nesse terceiro mandato do presidente Lula. Quando ele, já
desde a campanha, fala que é sobre "colocar o pobre no Orçamento, e o
rico no Imposto de Renda".
Isso se refletiu na reforma do Imposto de Renda, não só pelo fato de se
atribuir uma alíquota mínima para esse topo, mas a própria isenção para
quem ganha até R$ 5 mil, com progressão até quem ganha R$ 7,5 mil,
porque você está dando um benefício fiscal para quem está nesse meio.
Mas claro, isso é apenas uma medida. Ainda há muito o que avançar,
porque, mesmo com a alíquota mínima de 10%, continuamos com esse topo
pagando menos do que quem vem logo abaixo dele.
E não é só sobre taxação da renda, o debate tem que avançar no próximo
período para alguma forma de taxação de riqueza, porque taxar a renda
pode até frear a concentração, mas não corrige o que historicamente
acumulou.
A concentração de riqueza é mais elevada do que a da renda, o que faz
com que essa desigualdade se perpetue, e ela se perpetua também no
sistema político. Porque a influência daqueles que estão nesse topo é
muito desproporcional e, com isso, atua para preservar a estrutura
atual.
BBC
News Brasil - Numa fala pública no fim do ano passado, o Luis
Stuhlberger, gestor do Fundo Verde [fundo de investimento conhecido por
seu histórico de alto retorno aos investidores], falou que o governo
Lula age como "pai dos pobres e mãe dos ricos", por conta do elevado
gasto social, combinado a juros altos. Você concorda com essa avaliação?
Carvalho -
Não que os juros sejam gerados pelo gasto social. Não acho que temos
uma taxa de juros tão alta porque o governo está gastando muito, porque
está gastando com benefícios sociais. Isso não tem evidência.
O nosso alto patamar de taxa de juros depende também do contexto
internacional e de como os fluxos de capitais estão entrando ou saindo
dos países em desenvolvimento. Hoje há um cenário de juros altos no
mundo inteiro, com o Brasil sendo, claro, sempre um caso um pouco fora
da curva. [Nota da redação: em junho, o Brasil ocupava o topo do
ranking das economias com maior juro real do mundo, mesmo após o corte
de 0,25 ponto percentual da Selic, para 14,25% ao ano. No período
recente, países com juros historicamente baixos ou zero elevaram suas
taxas, em meio ao avanço global da inflação.]
Mas também temos uma meta de inflação muito mais baixa do que outros países emergentes [atualmente, a meta de inflação é de 3% ao ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos].
Então, o que acho que é válido nessa comparação é que, de fato, o
Estado brasileiro, por meio da dívida pública elevada, que paga juros
muito altos, acaba sim, transferindo renda para os mais ricos e atuando
para perpetuar essa desigualdade elevada. Isso sim é verdade.
Hoje, muitos dos detentores da dívida são pessoas de alto patrimônio e
que, sem muito risco envolvido, obtêm esses rendimentos elevados. Isso
significa, sim, que o governo transfere renda para os mais ricos.
Inclusive, me parece que o custo distributivo da dívida é algo que a
gente não fala muito.
BBC
News Brasil - Essa persistência da desigualdade se reflete, de alguma
forma, no sentimento de mal-estar com relação à economia da população
brasileira?
Carvalho -
Temos visto no mundo todo, não só no Brasil, uma desconexão entre
indicadores macroeconômicos e percepção das pessoas sobre economia.
Inclusive durante o governo [Joe] Biden, nos Estados Unidos, se cunhou o
termo vibesession, que é uma espécie de recessão de sentimento.
Então não é só aqui no Brasil, isso vem sendo observado ao redor do
mundo, e o principal fator que tem sido trazido para explicar é a
própria inflação. Vivemos um período no mundo inteiro de sucessivos
choques inflacionários desde a pandemia, depois a guerra na Ucrânia, e
agora um terceiro com a guerra no Irã.
Então uma sequência de choques econômicos de natureza distinta, mas que
levaram a efeitos similares, de uma crise com inflação. O que torna
mais difícil para os governos lidar, porque, em crises de outro tipo,
como a de 2008, o governo faz o quê? Baixa a taxa de juros.
Hoje, nesses choques inflacionários, os governos atuam a partir do
aumento de taxas de juros pelos bancos centrais e, com isso, têm menos
espaço fiscal para ajudar a saída dessas crises.
Isso tem a ver com desigualdade, sim, no sentido de que a população que
mais foi afetada, sobretudo em 2024, pelo choque de preços de
alimentos, foram os 50% mais pobres que têm nesses produtos essenciais
uma parte maior da sua cesta de consumo. E, de fato, a gente observa
que, nas pesquisas eleitorais, esse ciclo de deterioração de percepção
econômica coincide com um ciclo de queda na aprovação do governo.
BBC News Brasil - Mas a inflação é suficiente para explicar essa insatisfação?
Carvalho
- A inflação não é suficiente para explicar, porque há um segundo ciclo
de deterioração dessa percepção sobre a economia, que vem entre 2025 e
2026. Ela se dá na classe média, entre os mais ricos. Há o crescimento
da renda, ela supera a inflação, então não é que as pessoas estão
perdendo poder de compra. As pessoas estão ganhando poder de compra e a
inflação tampouco foi expressiva para esse grupo dos mais ricos,
considerando a cesta de consumo deles.
Então, a gente se debruça sobre outros fatores. E o principal, me
parece, é que esse crescimento da renda se dá sobre níveis de renda
muito deprimidos. A gente veio de um período de uma década com
pouquíssimo crescimento da renda per capita, então só em 2024 as pessoas recuperam a renda que elas tinham lá em 2014.
Então o crescimento não é tão robusto quanto foi o dos anos 2000 e ele
se dá sobre uma memória de que você já foi mais próspero. E também o que
se deseja mudou. A sociedade vai mudando e querendo acesso a outras
coisas.
BBC
News Brasil - Você tem falado nessa questão do "consumo aspiracional" e
isso, inclusive, entrou no radar da equipe econômica do governo. Por
que isso virou uma preocupação?
Carvalho - Isso é um fenômeno novo que tem sido estudado. Em particular, o efeito das redes sociais sobre o consumo aspiracional.
Porque consumo aspiracional sempre fez parte da teoria econômica. Há
muito tempo, o economista James Duesenberry olhava para essa questão.
Como, na verdade, as pessoas não consomem só baseadas na própria renda. É
claro, sempre que a renda delas cresce, elas consomem mais. Mas elas
também acabam consumindo emulando o consumo de outros, sobretudo
daquelas classes que elas aspiram ser.
E elas então se comportam e têm os seus desejos de consumo pautados por
aquilo, mesmo se a renda delas é insuficiente, o que, claro, está por
trás de dinâmicas frequentes de endividamento. Porque quando há algum
descompasso entre aquilo que você ganha e aquilo que você deseja
consumir, o que cobre o resto acaba sendo o crédito. Isso sempre foi
verdade, isso não é novo.
Mas, claro, as redes sociais mudam muito essa dinâmica. Esse "efeito
demonstração" de consumo ocorre de uma forma muito diferente com a
presença das redes. As pessoas têm acesso ao padrão de consumo de
classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil.
Você não só está vendo o que consome uma pessoa no seu bairro, na sua
família, você está vendo o que consome uma pessoa da classe média
europeia ou um rico no seu país. E então os desejos, as aspirações, vão
se homogeneizando e se globalizando de uma forma muito rápida e única na
história, com uma sensação de insatisfação saindo daí.
Muitos estudos mostram que as pessoas se frustram também pelo fato de
estarem vendo essa ostentação, que não é só a ostentação de bens de
luxo, mas também do que as pessoas fazem com seu tempo livre, a viagem, o
lazer. Consumo não é só coisas, é um padrão de vida.
Acho que isso talvez traga um dos elementos da diferença entre o que
foram os anos 2000 para o governo Lula 1, Lula 2, e o que vem sendo esse
governo.
Porque, ali nos anos 2000, a distribuição de renda na base da pirâmide e
o crescimento econômico expressivo incluíram uma parte da população no
mercado consumidor que estava totalmente excluída desse mercado. Que
passou a ter acesso a geladeira, a viagem de avião. Surgiu uma nova
classe média, que hoje já não é mais satisfeita com esse mesmo padrão de
consumo.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — Foto: Ricardo Stuckert/PR
BBC News Brasil - E como mudar esse quadro de insatisfação e gerar um novo ciclo de prosperidade?
Carvalho -
Pelo fato de a renda ter ficado estagnada durante tanto tempo, vai
levar tempo. Precisamos chegar num ponto em que as pessoas se sintam
satisfeitas, que o salário no fim do mês seja suficiente para dar vazão
àquilo que elas entendem como um padrão de vida confortável.
Primeiro, a economia tem que crescer muito mais e o nível de renda tem
que subir. O PIB [Produto Interno Bruto, soma de todos os bens e
serviços produzidos no país] continua importando e muito.
E a renda tem que ser redistribuída. Quanto mais desigualdade, mais
difícil é a gente chegar nesse ponto em que a maior parte da sociedade
brasileira consiga se beneficiar desse crescimento.
E terceiro, tem toda uma agenda de serviços públicos, porque nem toda
inclusão se dá com renda direta para as pessoas. Elas também podem
gastar menos da sua renda com serviços privados, porque têm acesso a
serviços públicos de maior qualidade. Um plano de saúde que deixa de ser
necessário porque o SUS atende, ou uma educação privada que deixa de
ser necessária porque o sistema de educação atende. Isso já libera muita
margem para que as pessoas deem vazão às suas ambições e aspirações.
E um tempo menor no transporte público. Isso é uma mudança de qualidade
de vida que também contribui para deixar as pessoas mais próximas de um
padrão de vida que elas desejam.
BBC
News Brasil - Você cita a expansão dos serviços públicos como um dos
itens dessa receita, como fazer isso num quadro de restrição fiscal, sem
aumentar ainda mais os juros que alimentam a desigualdade?
Carvalho
- A gente defende que seja dado sequência à agenda de tributação. E aí
não é só sobre cobrar mais impostos progressivos, mas também sobre
subsídios. Os gastos tributários, que hoje representam 6% do PIB, também
contribuem para a desigualdade. São deduções que não estão perseguindo
nenhuma agenda específica, que foram sendo expandidas por influência dos
setores beneficiados.
BBC
News Brasil - Mas é possível abrir espaço fiscal só via tributos? Ou
reformas estruturais também podem ser necessárias, como uma reforma
administrativa?
Carvalho -
Temos que continuar avançando em eficiência no gasto, nos serviços.
Essa é uma agenda que temos visto nesse governo, com digitalização dos
serviços. Para que um mesmo real gasto no sistema de saúde, no sistema
de educação, atinja uma qualidade maior, atinja mais gente.
Agora, não me parece que a gente vai conseguir chegar num objetivo de
serviço público de maior qualidade, achando que o grande inimigo do
Orçamento são as pessoas que estão trabalhando na prestação desses
serviços.
Tampouco acho que cortar benefício social [seja a solução], apesar de,
claro, poder haver uma discussão sobre integração, sobre racionalização
dos benefícios, que de fato são muitos, e são sobrepostos muitas vezes.
Acho que isso é válido.
BBC
News Brasil - Você também tem citado como um dos fatores dessa
frustração dos brasileiros, as gerações escolarizadas que não encontram
empregos compatíveis. Por que isso está acontecendo? E como você vê o
impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho brasileiro nos
próximos anos, isso pode agravar esse quadro?
Carvalho -
O Brasil, nos primeiros ciclos de governos do PT, expandiu muito o
nível educacional, deu acesso a [educação de] nível superior para filhos
de famílias que nunca tiveram. Isso tanto pelo Fies, quanto pelo
Prouni, quanto pela própria expansão das universidades federais.
Passamos a ter uma geração inteira de pessoas com diploma universitário
que hoje procuram empregos num nível de qualificação maior do que os
seus pais tinham. E os empregos que estamos gerando são de um salário
mínimo e em setores de serviços de baixa qualificação.
Então, há um certo descompasso entre os empregos gerados e aqueles que
as pessoas querem e têm qualificação para ter. Isso já vem sendo
observado há algum tempo. Na última década, aumentou muito o percentual
de pessoas que estão em empregos que requerem um nível educacional menor
do que o que elas têm.
BBC News Brasil - E como endereçar esse problema?
Carvalho
- Isso vem sendo debatido ao redor do mundo e demanda um tipo de
política que olhe para a estrutura produtiva, e [defina] quais são os
setores onde nós vamos entrar e onde o Brasil tem competitividade.
Isso tem a ver com a agenda de desenvolvimento do país. É preciso olhar
pela ótica do emprego, de maneira combinada a transição climática,
soberania e vários outros objetivos que tem uma política industrial.
Também tem que olhar pelo lado da própria educação. Porque, às vezes,
os diplomas que estão sendo dados não são compatíveis com a estrutura
produtiva.
Então, [é preciso pensar] como você integra mais o Sistema S, as
universidades, os institutos federais a essa estratégia. Para que as
pessoas se eduquem também onde há oportunidades.
A questão da IA, claro, afeta isso tudo. Mas eu acho que ela não é o principal.
BBC
News Brasil - A professora Rosana Pinheiro Machado tem escrito sobre
como a direita radical tem mobilizado essa nova classe trabalhadora
plataformizada por meio das redes digitais, com discurso particularmente
direcionado para os microempreendedores e trabalhadores informais. Na
sua visão, é possível reconquistar esses trabalhadores para o campo
democrático através de medidas econômicas?
Carvalho
- Em alguns casos, esses são indivíduos que estão nesses trabalhos
porque não têm outro, mas em muitos casos são pessoas que hoje valorizam
algum grau de autonomia sobre o seu tempo. Até porque a sua alternativa
seria estar numa escala 6x1, onde esse tempo não existe.
Então a própria escala 6x1 é uma agenda que ajuda. O outro lado é,
claro, proteção. Então, como essas pessoas vão ter acesso a proteção
social caso elas percam empregos. Acho que tem toda uma agenda de
regulação do setor que faz sentido.
Mas, uma terceira parte, que eu acho que é pouco falada, é que esse
setor depende muito de uma macroeconomia que vai bem. Quando a economia
vai mal, os primeiros a sofrerem são esses trabalhadores que ou são
precarizados, pois estão em empregos informais, ou são plataformizados.
É um setor muito dependente de PIB e de desemprego baixo. Então a forma
de entregar uma melhora substantiva para esses trabalhadores é ter uma
economia que cresce. Essa é a principal.
A gente precisa ter um ciclo de crescimento mais longo, mais robusto,
com redistribuição de renda, para conseguir ver indicadores melhores de
percepção das pessoas sobre a economia.
BBC
News Brasil - Você sempre esteve próxima dos governos petistas, mas
nunca assumiu um cargo no Executivo. Tem esse desejo num eventual
governo Lula 4?
Carvalho - Eu sou uma professora universitária, fico muito confortável na posição de analista da política econômica brasileira.
Estando fora, a gente contribui para essa compreensão, essa análise dos
fenômenos, com diálogo permanente com aqueles que estão [dentro do
governo] fazendo. Então, eu sempre fiquei muito confortável nessa
posição.
Nesse momento, estou mais pensando em escrever um novo livro, como foi o Valsa Brasileira,
que analise esse novo ciclo necessário de prosperidade econômica no
país. Qual é essa agenda de prosperidade econômica que possa nos ajudar a
superar esses desafios novos, com os limites todos. Como abrir as
frestas necessárias para conseguir implementar e adotar essas agendas.
Então, isso é o que está mais na minha cabeça no momento.