Enquanto campanhas avançam, órgão pede continuidade de estímulos monetários para retomada da atividade, mas pede prudência e focalização de políticas públicas; Brasil segue abaixo da média global de crescimento. --------+++-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------+++--------- Por G1 Postado em 06 de abril de 2021 às 12h30m .*Post. N. =0.245*.
Uma pessoa ficou ferida após a explosão de uma carta-bomba no
escritório do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Paris — Foto:
Mandel Ngan/AFP
A economia global poderia ter queda três vezes maior, não fossem os
estímulos monetários injetados pelos bancos centrais durante a pandemia
do coronavírus, mas a persistência de números surpreendentes depende da
vacinação em massa. A conclusão está na nova edição do relatório "World
Economic Outlook", do FundoMonetário Internacional(FMI), divulgado nesta terça-feira (6).
Com esses estímulos monetários ainda irrigando as economias, o FMI
revisou para cima as projeções de crescimento global para 2021 e 2022. A alta deve ser de 6% neste ano e 4,4% no próximo. O aumento é de 0,8 e 0,2 ponto percentual em relação ao relatório de outubro, respectivamente.
O Brasil está abaixo da média, com crescimento previsto de 3,7% neste ano e 2,6% no próximo. Comparado à edição de outubro, houve alta de 0,9 e 0,3 ponto percentual para a projeção do país em cada ano, respectivamente.
Por outro lado, o país tem desempenho melhor que a região onde está
inserido, da América Latina e Caribe. Com queda de 4,1% em 2020, o país sofreu menos que os 7% da zona a que pertence. As altas de 4,6% e 3,1% previstas para a região, portanto, vem de uma base de queda mais intensa.
Em carta publicada no relatório, a economista-chefe do FMI, Gita
Gopinath, reforça que as incertezas continuam no ambiente econômico
global, mas uma saída passa a ser "cada vez mais visível".
O FMI ressalta, entretanto, que a vacinação contra a Covid-19 é fator primordial para que os números se tornem realidade.
A variável é tão importante que o fundo avisa que um desempenho melhor
que o esperado pode dar vigor à recuperação em todo mundo, mas novas
variantes que coloquem em xeque a efetividade das vacinas causariam uma
severa revisão para baixo.
Desempenho esperado do PIB global do FMI — Foto: G1 Economia
O FMI fez uma série de revisões para cima ao longo de 2020, conforme as
economias reagiram à pandemia do coronavírus. O maior otimismo do órgão
um ano adentro da pandemia tem como plano de fundo, além da ação
monetária e das vacinas, uma certa adaptação à "vida em pandemia".
O tombo previsto para a economia global em 2020 é de 3,3%,
com impacto desigual a depender do perfil de cada país e de sua força
de trabalho. As consequências serão particularmente agudas em países dependentes do turismo, com dívida pública mais alta e menor capacidade de vasto atendimento de saúde.
"Jovens,
mulheres, trabalhadores com nível de escolaridade relativamente baixo e
os empregados informais foram atingidos com mais força", diz o órgão.
Desigualdade em pauta
Gita Gopinath, economista-chefe do FMI: "As políticas monetárias terão
que se tornar mais direcionadas para manter a capacidade de sustentar a
atividade econômica durante este período incerto." — Foto:
REUTERS/Rodrigo Garrido
No relatório, Gita Gopinath reconhece que o vigor de retomada é mais
claro em economias desenvolvidas. Exceto a China, que já recuperou seus
níveis de PIB pré-pandemia ainda em 2020, a economista lembra que os
Estados Unidos estão em estágio avançado de recuperação e devem atingir o
marco ainda em 2021.
Além de pacotes de estímulos históricos, que despejaram mais de US$ 5
trilhões na economia, os americanos têm a mais abrangente e veloz
vacinação do mundo.
Outras economias importantes, como as europeias, que têm vacinação em
atraso, só retomarão o patamar em 2022, diz o FMI. Emergentes só devem
chegar nesse marco em 2023.
Gopinath lembra que a renda per capita é outro fator de preocupação do
FMI, com impacto em toda a cadeia global. No biênio 2020-2022, a
expectativa é de perda de 20% do PIB per capita em países emergentes –
excluída novamente a China – e de 11% nas economias desenvolvidas.
"Isso
reverteu os ganhos na redução da pobreza, com mais 95 milhões de
pessoas previstas para entrar nas categorias de extrema pobreza em 2020,
e 80 milhões a mais subnutridos do que antes", diz ela.
O quadro é ainda mais grave, pois o mercado de trabalho está punindo
mais o trabalhador sem experiência prévia ou com baixa capacitação,
grupos que já têm como característica uma renda menor.
"As
políticas, portanto, terão que se tornar mais direcionadas para manter a
capacidade de sustentar a atividade econômica durante este período
incerto à medida que a corrida entre o vírus e as vacinas se desenrola",
afirma a economista.
A cooperação internacional, diz o FMI, também será vital para garantir
que as economias emergentes e países em desenvolvimento possam diminuir a
distância entre seus padrões de vida comparados aos de alta renda.
PIB do G-20 cresce 2,1% nos últimos três meses de 2020
Prudência
Com os olhos atentos ao caminhar das vacinações ao redor do mundo, o
FMI sugere que os governantes tenham prudência nos próximos passos. A
entidade, inclusive, indica alguns pontos de atenção para que a tomada
de decisão seja certeira enquanto persistem os efeitos da pandemia mundo
afora.
Prioridade aos gastos com saúde, incluindo atendimento hospitalar, tratamento para a Covid-19, produção e aplicação de vacinas;
Fortalecer políticas de proteção social, desde trabalhadores informais até ampliação dos critérios para acesso ao seguro-desemprego;
Com normalização do mercado de trabalho, arrefecer possíveis impactos nas empresas, investir em capacitação da mão de obra, dar subsídios para contratação e criação de vagas de emprego;
Políticas de facilitação de falências, com objetivo de acelerar a alocação eficiente de capital;
Investimento em educação para compensar as perdas da formação de crianças durante a pandemia.
Resolvida a crise de saúde, o FMI recomenda ainda um foco especial em um direcionamento para o desenvolvimento sustentável.
"As
prioridades devem incluir o investimento em infraestrutura verde para
ajudar a mitigar as mudanças climáticas, o fortalecimento da assistência
social e da seguridade social para conter o aumento da desigualdade, a
introdução de iniciativas para aumentar a capacidade produtiva e se
adaptar a uma economia mais digitalizada e resolver os excessos da
dívida", diz a carta de Gita Gopinath.
Android Recurso do sistema que permite obter a lista de apps instalados só poderá ser usado para finalidades específicas e não comerciais. ===+===.=.=.= =---____--------- ---------____------------____::_____ _____= =..= = =..= =..= = =____ _____::____-------------______--------- ----------____---.=.=.=.= +==== Por Altieres Rohr É fundador de um site especializado na defesa contra ataques cibernéticos 05/04/2021 17h43 Atualizado há 1 hora Postado em 05 de abril de 2021 às 18h45m .*Post. N. =0.244*.
Google recompensa quem relata falha em seus produtos. No Android, prêmio pode passar de R$ 6 milhões. — Foto: Altieres Rohr/G1
Uma mudança nas políticas da Play Store vai limitar os cenários em que
aplicativos podem obter a lista de todos os apps presentes no aparelho
do usuário.
A regra entra em vigor no dia 5 de maio. Apps que não respeitarem as
novas restrições podem ser excluídos da loja do Google e, em casos mais
graves, a conta do desenvolvedor poderá ser suspensa.
O Android possui funções específicas para que apps solicitem uma lista
completa com todos os programas instalados no telefone. Essa lista tem
alto valor comercial, pois permite direcionar anúncios com base no uso
do telefone.
Um usuário com muitos apps de jogos, por exemplo, pode receber mais
anúncios referentes a games, enquanto outro usuário com apps de
investimentos poderia receber propagandas sobre produtos financeiros.
Com a nova regra, só aplicativos que realmente precisam da lista por
motivos técnicos devem ter permissão para obtê-la. É o caso de programas
que ajudam a limitar o uso de determinados apps ou que controlam o
acesso a aplicativos, como antivírus.
O anúncio do Google também destaca que a lista de apps não pode ser obtida para ser compartilhada ou vendida.
Além da finalidade comercial, a lista de apps instalados também é muito
útil em fraudes. Ela pode ser usada para identificar a presença de
algum antivírus específico, e assim adaptar o comportamento da praga
digital para não levantar suspeitas.
Porém, as regras do Google não terão efeito para apps fora da Play
Store. É muito comum que aplicativos maliciosos sejam distribuídos fora
do canal oficial, embora o serviço do Google não esteja totalmente livre
de problemas.
A regra, porém, pode aumentar a fiscalização sobre aplicativos
suspeitos. Apps que usam as chamadas "permissões restritas" precisam ser
acompanhados de um formulário para facilitar a revisão do software. Sem
a documentação, o app não é publicado na Play Store.
O acesso a SMS, chamadas e recursos de acessibilidade também fazem
parte da lista de permissões restritas, que agora foi novamente
ampliada.
A mudança deixa o Android mais parecido com o iOS, da Apple. No sistema
do iPhone, a lista de apps instalados não é considerada uma informação
acessível a qualquer programa. A Apple também já tomou medidas para
coibir certos mecanismos que fornecem acesso indireto a essa lista.
Dúvidas sobre segurança, hackers e vírus? Envie para g1seguranca@globomail.com
China absorveu quase 90% dos fluxos líquidos no mês passado, com US$ 3,8 bilhões indo para ações e US$ 5 bilhões para instrumentos de dívida chinesas. --------+++-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------+++--------- Por Reuters 05/04/2021 12h14 Atualizado há 02 horas Postado em 05 de abril de 2021 às 14h15m .*Post. N. =0.243*.
Fluxos líquidos estrangeiros em carteiras de ações e dívidas de
mercados emergentes desaceleraram em março para o seu ponto mais fraco
em quase um ano, mostraram dados do Instituto de Finanças Internacionais
(IIF, na sigla em inglês) nesta segunda-feira (5).
A perda de ritmo acontece à medida que o aumento dos rendimentos dos
EUA continua a pesar sobre os mercados emergentes, com os fluxos
excluindo a China fazendo pouca diferença no mês passado.
A estimativa de fluxos líquidos de US$ 10,1 bilhões em março foi o
menor valor mensal desde abril de 2020 e se compara a entradas líquidas
revisadas para baixo de US$ 23,4 bilhões em fevereiro.
A China absorveu quase 90% dos fluxos líquidos no mês passado, com US$
3,8 bilhões indo para ações e US$ 5 bilhões para instrumentos de dívida
chinesas. Excluindo a China, as ações dos mercados emergentes
canalizaram US$ 0,2 bilhão, enquanto US$ 1,2 bilhão foram para dívidas
não chinesas.
"Apesar das leituras decepcionantes, algum suporte positivo aos fluxos
permanece, decorrente do aumento dos preços das commodities e da
dinâmica construtiva do balanço de pagamentos", disse o IIF em nota.
"Nossa opinião é que o risco de contágio é menos grave do que durante a
liquidação dos mercados emergentes em 2018 ou durante a taper tantrum de
2013."
A estimativa é que 300 mil veículos podem deixar de ser produzidos esse ano. Cerca de 60% dos empregados diretos do setor estão em casa nesse momento. --------+++-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------+++--------- Por BBC 04/04/2021 09h46 Atualizado há 3 horas Postado em 04 de abril de 2021 às 12h50m .*Post. N. =0.242*.
Protesto de trabalhadores do setor em Taubaté; falta de chips
eletrônicos e queda de demanda deixam mais de 60 mil operários em casa —
Foto: Roosevelt Cassio/Reuters/Via BBC
Uma crise considerada "sem precedentes" no fornecimento de componentes,
aliada à queda da demanda no mercado interno com o agravamento da
pandemia, levou à paralisação total ou parcial de 13 das 23 montadoras de automóveis do país,
que somam 29 fábricas paradas, de um total de 58. Os dados são da
Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).
Falta de peças e avanço da Covid paralisa metade das montadoras do país
Entre janeiro e fevereiro, durante a crise de falta de oxigênio em
Manaus, ao menos quatro fabricantes de motocicletas da Zona Franca
paralisaram temporariamente a produção, segundo a Abraciclo (Associação
Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas,
Bicicletas e Similares). Outras indústrias da região tiveram que reduzir
turnos devido ao toque de recolher imposto para conter a proliferação
do vírus no Estado.
Volkswagen foi a primeira montadora a anunciar a suspensão da produção no país, em 19 de março — Foto: Divulgação/Volkswagen
Com
a parada de produção, especialistas no setor automotivo estimam que até
300 mil veículos podem deixar de ser produzidos esse ano. E entre 60% e
70% dos cerca de 105 mil empregados diretos do setor estão em casa
nesse momento.
A paralisação temporária de parte da indústria piora a perspectiva para
o desempenho da economia brasileira em 2021. As projeções para o PIB
(Produto Interno Bruto) já vêm sendo reduzidas desde janeiro, devido ao
agravamento da pandemia e lento avanço da vacinação.
Valdo: ‘Saída das montadoras no Brasil já vinha se desenhando’
No início do ano, a projeção mediana do mercado para o avanço do PIB em
2021 era de 3,4%, após queda de 4,1% registrada em 2020. No boletim
Focus do Banco Central mais recente (de 29/3), a previsão de crescimento
para esse ano já estava em 3,18%. Mas os mais pessimistas já apostam em
números abaixo dos 3%.
Paradas em cascata
A Volkswagen foi a primeira montadora a anunciar a suspensão da
produção no país, no dia 19 de março. "Com o agravamento do número de
casos da pandemia e o aumento da taxa de ocupação dos leitos de UTI nos
estados brasileiros, a empresa adota esta medida a fim de preservar a
saúde de seus empregados e familiares", informou a companhia, na
ocasião.
Nos dias seguintes, os anúncios de parada se sucederam. Algumas das
empresas apontaram a falta de componentes como motivo para redução da
produção, caso da Volvo e da GM.
"A Volvo vai reduzir a produção de caminhões em sua fábrica de
Curitiba", disse a montadora sueca. "O motivo é o alto nível de
instabilidade na cadeia - global e local - de abastecimento de peças,
principalmente semicondutores, combinado com o agravamento da pandemia".
No último levantamento da Anfavea (de 30/3), estavam paradas: Mercedes,
Renault, Scania, Toyota, Volkswagen, Volkswagen Caminhões e Ônibus,
BMW, Agrale, Honda, Jaguar e Nissan. GM e Volvo não pararam totalmente, mas reduziram substancialmente a produção.
As paralisações começaram em 24 de março e as empresas planejam voltar
entre 5 de abril e o final de maio. Mas os analistas avaliam que as
paradas podem ser estendidas, dependendo do andamento das medidas de
isolamento social nos estados e municípios, já que em muitos deles as
concessionárias estão fechadas, impedindo as vendas.
Faltam chips em todo o mundo
Conforme Milad Kalume Neto, gerente de desenvolvimento de negócios da
Jato Dynamics, consultoria especializada no mercado automotivo, são dois
os motivos principais que levaram à onda de paralisações nas fábricas
brasileiras de automóveis. China é o maior produtor de chips do mundo e tem priorizado seu mercado interno na retomada — Foto: Getty Images/Via BBC
"O primeiro motivo é a falta de peças, decorrente de logística
internacional, e problemas de suprimento, principalmente de
semicondutores", afirma o consultor.
Segundo o especialista, o déficit de produtos se deve à recuperação da
economia chinesa. O país asiático é o maior produtor de chips do mundo e
tem priorizado seu mercado interno na retomada, em detrimento da
exportação para outros países.
Além disso, os semicondutores também são usados pela indústria de
notebooks, computadores, consoles de videogame, televisores e celulares,
produtos cujas vendas cresceram muito na pandemia, devido à permanência
das pessoas em casa.
"Em paralelo a isso, há também a diminuição das vendas em função da
paralisação dos grandes centros urbanos pela segunda onda da covid", diz
Kalume Neto.
De acordo com dados da Fenabrave, associação que representa as
concessionárias, no acumulado de janeiro e fevereiro desse ano, foram
emplacados cerca de 339 mil veículos no Brasil, entre carros, comerciais
leves, caminhões e ônibus.
O montante representa uma queda de 14% sobre o mesmo período de 2020,
sob impacto também do aumento de ICMS sobre a venda de veículos em São
Paulo, estado que responde por mais de 23% da venda de carros novos e
40% das transações de usados no país.
Cassio Pagliarini, consultor associado da Bright Consulting, cita ainda
a preocupação social das montadoras em meio ao agravamento da crise
sanitária. "Com o aumento no número de mortes e infecções, as montadoras
decidiram, em conjunto com os sindicatos, parar as atividades e fazer
um plano de recuperação da produção mais à frente", diz Pagliarini.
Analistas estimam que de 55 mil a 300 mil veículos podem deixar de ser produzidos — Foto: Agência Brasil/Via BBC
Revisão de projeções
Com a parada de produção, a Jato Dynamics revisou sua estimativa para a
quantidade de carros que deve ser vendida no Brasil esse ano, de uma
estimativa de 2,3 milhões a 2,4 milhões no início do ano para 2,1
milhões. Em 2020, foram vendidos 1,95 milhão de veículos.
"Vamos ter que torcer muito para que atinja 2,1 milhões, vai depender
muito de quanto a paralisação vai perdurar. A cada dia que as fábricas
ficam fechadas isso afeta as projeções", diz Kalume Neto.
Já a Bright Consulting cortou sua projeção de 2,45 milhões para 2,38 milhões.
"Agora estamos na mão da pandemia", diz Pagliarini. "Por causa dos
lockdowns e medidas de isolamento decretadas pelos governos estaduais e
municipais, as concessionárias fecharam e o cliente ficou mais arredio.
Então aquilo que perder agora, não vamos conseguir recuperar, não por
causa de capacidade da indústria, mas por causa da capacidade de
compra."
Pagliarini destaca que, em 2020, as vendas de veículos se recuperaram
rapidamente porque elas competem principalmente com reformas de casa,
cursos e viagens. Embora as reformas tenham continuado, cursos e viagens
foram muito reduzidos, o que levou mais consumidores a investirem em
carros, também diante da percepção de insegurança do transporte público. Fabricantes Honda, Dafra, Triumph e J. Toledo chegaram a parar
temporariamente a produção em Manaus — Foto: Agência Brasil/Via BBC
Parada da indústria automotiva tem efeito em cadeia
A paralisação temporária da indústria automotiva deve impactar a
produção industrial e também o desempenho do PIB em 2021, avalia o
economista Claudio Considera, coordenador do Monitor do PIB do Ibre-FGV
(Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
Com base em dados do Sistema de Contas Nacionais do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística) para 2018, Considera destaca que a
fabricação de automóveis, caminhões, ônibus e autopeças representa 0,9%
do PIB brasileiro e 6,7% do PIB da indústria de transformação; 0,4% do
emprego total do país e 4,1% do emprego da indústria; além de 1,4% dos
salários da economia e 8,8% dos salários do setor industrial.
"Acontece o seguinte: isso é só o peso direto. Porque a indústria
automotiva compra plástico, laminados de aço, produtos químicos,
produtos metálicos, produtos de borracha", enumera o economista. "Tudo
isso deixa de ser demandado quando você para de produzir automóveis."
Em fevereiro, mesmo antes da paralisação das montadoras, a produção
industrial brasileira já havia recuado 0,7%, em relação a janeiro, com
queda de 7,2% da produção de veículos, segundo o IBGE.
O Ibre-FGV estima que o PIB do país deve cair 0,5% no primeiro
trimestre e outro 0,5% no segundo trimestre. Ainda assim, o instituto
projeta alta de 3,2% do PIB no ano, contando com o avanço da vacinação e
reabertura gradual das atividades no segundo semestre.
Zona Franca de Manaus em alerta
A perspectiva de menor crescimento do PIB brasileiro este ano coloca os
fabricantes do Polo Industrial de Manaus em estado de atenção.
Algacir Polsin, superintendente da Suframa (Superintendência da Zona
Franca de Manaus), autarquia ligada ao Ministério da Economia que
administra a Zona Franca, lembra que empresas do polo tiveram a
atividade afetada no início desse ano, durante a crise de falta de
oxigênio no Amazonas.
"Houve paralisação do período noturno, do terceiro turno das fábricas,
em virtude das restrições do governo do Estado", diz Polsin. "Também
houve paradas momentâneas de produção, por decisão de algumas empresas,
por segurança, falta de peças ou até mesmo pela questão do oxigênio, que
é usado na indústria e foi remanejado para a saúde."
Segundo a Abraciclo, entidade que representa a indústria de
motocicletas, as fabricantes Honda, Dafra, Triumph e J. Toledo
(representante da Suzuki no Brasil) chegaram a parar temporariamente a
produção em Manaus.
Em janeiro, quando a produção industrial do Brasil como um todo avançou
0,4%, em relação ao mês anterior, a produção no Amazonas despencou
11,8%, conforme o IBGE. Ainda não há dados regionalizados para
fevereiro.
"Nesse momento, já estamos com o polo industrial funcionando em ritmo
normal. Mas estamos aguardando o que está acontecendo no restante do
país", diz Polsin. "É natural que qualquer redução da demanda de
produtos acabados, em virtude de restrições de trânsito e de
funcionamento do comércio no restante do país, possa afetar o Polo
Industrial de Manaus."
O desempenho da indústria automotiva também está sendo acompanhado de
perto. "Temos peças de automóveis que são fabricadas aqui em Manaus e
estamos acompanhando a situação, para ver se isso pode, com o passar do
tempo, impactar o polo."
Polsin destaca porém que, em 2020, a Zona Franca registrou um
crescimento de 14% no faturamento, em relação a 2019, mesmo em meio ao
grave efeito do coronavírus sobre Manaus.
"A produção foi muito afetada em abril e maio do ano passado, em
virtude da pandemia. Mas depois, voltou a crescer", diz o
superintendente.
Segundo ele, isso foi possível devido à mudança de hábitos da população
brasileira, que resultou em um aumento das vendas de aparelhos de ar
condicionado e itens de informática, devido ao trabalho remoto e ensino à
distância. Além do forte crescimento na procura por motos e bicicletas,
como resultado do avanço do delivery.
Outras montadoras podem seguir a Ford e deixar o Brasil?
Ford anunciou em janeiro o fim da produção de veículos no Brasil e o
fechamento de suas fábricas — Foto: Carla Carniel/Reuters/Via BBC
Diante de um ano que começou com o anúncio da saída da Ford do Brasil e
que registra já em março paradas significativas na maior parte do setor
automotivo, naturalmente surge a dúvida: outras montadoras podem seguir
a americana e deixar o país?
Para Kalume Neto e Pagliarini, da Jato Dynamics e da Bright Consulting,
esse é um cenário que não pode ser descartado, mas não é o mais
provável no curto a médio prazo.
Pagliarini explica que a saída da Ford está ligada à decisão da empresa
de se dedicar à produção de pick-ups, vans e SUVs (veículos utilitários
esportivos), veículos eletrificados e o modelo de luxo Mustang. Com
isso, a companhia decidiu abandonar a produção de hatchs e sedans, os
dois modelos mais populares no Brasil.
Além disso, a empresa foi contemplada por benefícios fiscais no país
durante 15 anos, entre 2003 e 2018. Com o encerramento desses
benefícios, a Ford não tinha rentabilidade na fábrica de Camaçari, na
Bahia.
"Veio a pandemia e acelerou tudo", diz o analista da Bright Consulting,
explicando que, diante da mudança de estratégia da empresa e da falta
de rentabilidade e ociosidade de suas fábricas no Brasil, a queda de
demanda causada pela pandemia acelerou o processo de tomada de decisão
quanto à saída do país.
Assim, Pagliarini destaca que o caso da Ford teve particularidades. Mas
é preciso levar em conta que a capacidade instalada no Brasil é para a
produção de 4,8 milhões de veículos por ano e estão sendo produzidos
atualmente praticamente a metade disso. "Tem mais de 2 milhões de
capacidade ociosa no país", destaca o analista.
"Com a diminuição do mercado, existe sempre o risco de uma empresa
acabar saindo, mas não está no horizonte nenhuma fábrica ser fechada no
mercado brasileiro atualmente", avalia Kalume Neto, da Jato Dynamics.
E as montadoras podem voltar a demitir?
Quanto à manutenção do emprego nas fábricas, os analistas avaliam que tudo vai depender da extensão das paradas de produção.
'Empresas estão em espera. Não estão demitindo, mas estão examinando o mercado', diz analista — Foto: Getty Images/Via BBC
"Historicamente, antes da última crise, a indústria nacional trabalhava
com 125 mil, 130 mil funcionários", lembra Kalume Neto. "Estamos hoje
entre 100 mil e 105 mil, então já houve uma diminuição e isso é muito
visível quando se visita as montadoras."
Segundo o analista, a segunda metade de 2020 foi de retomada da
produção e do emprego, mas esse processo agora pode ser interrompido.
"Com esse novo ciclo da pandemia, as empresas estão em espera. Não estão
demitindo, mas estão examinando o mercado."
Essa também é a avaliação de Renato Almeida, vice-presidente do
Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região e trabalhador
da GM.
A montadora anunciou em março a parada de suas plantas de São Caetano
do Sul (SP) e Gravataí (RS) por falta de componentes eletrônicos. Em São
José dos Campos (SP), 600 trabalhadores foram colocados em lay-off por
dois meses - eles se somam a outros 368 funcionários que já estavam com
contratos suspensos desde o ano passado.
"Vemos com muita preocupação a atual situação econômica e política do
Brasil. Soma-se a isso agora essa crise sem precedentes de falta de
peças, que desorganizou todo o parque industrial brasileiro", diz
Almeida.
"Fizemos o acordo de lay-off com a direção da empresa com estabilidade
do emprego, o que significa que não pode haver demissões por dez meses,
nem para quem está na fábrica hoje e nem para os trabalhadores do
lay-off", afirma.
"Isso nos dá uma certa segurança, mas nada é certo. Quantos acordos já
não foram rasgados pelas montadoras? A própria Ford tinha acordo de
estabilidade até 2021 e acabou determinando o fechamento das plantas",
lembra o sindicalista.
O operador de máquinas Adriano Henriques Silva, de 40 anos, dez deles
passados na fábrica da GM em São José, foi um dos 600 trabalhadores
incluídos no lay-off mais recente.
Ele deve permanecer em casa entre 8 de março e 2 de maio, recebendo um
benefício pago pelo governo a partir de recursos do FAT (Fundo de Amparo
ao Trabalhador), com complemento do salário pela empresa. Essa é a
segunda vez que o funcionário é colocado em lay-off, a vez anterior foi
durante a crise de 2013-2014, quando Silva ficou em casa por cinco
meses.
"Como estou com previsão de volta para daqui a dois meses, os dias não
estão sendo tão difíceis. Estou encarando isso como umas férias, mas
como é durante a pandemia, não tem como passear", diz Silva.
"Espero que, do jeito que eu saí, daqui a dois meses quando eu voltar,
esteja tudo da mesma forma, com os mesmos colegas de trabalho e que
normalize a produção. É isso que eu espero."