Foi a terceira alta mensal seguida, com crescimento de 1,4% acumulado no período, mas ainda insuficiente para recuperar a perda de janeiro – no ano, o setor industrial acumula queda de 3,4%.
Com o resultado, a produção industrial do país ainda se encontra 1,5% abaixo do patamar pré-pandemia e 18% abaixo do nível recorde, alcançado em maio de 2011.
"Essas
duas comparações dão a dimensão de um setor industrial que, embora
venha mostrado um maior dinamismo nos últimos três meses, está muito
aquém de dois anos atrás e com muito espaço para crescer", avaliou o
gerente da pesquisa, André Macedo.
Embora próximo da estabilidade, o resultado foi o melhor para um mês de abril, na comparação com março, desde 2019, quando houve crescimento de 0,3% – em abril de 2020, houve queda recorde de 19,7%, e em 2021 foi registrado recuo de 1,8%.
Já o indicador acumulado em 12 meses, que vinha desacelerando desde
setembro do ano passado, despencou para -0,3% em abril, primeira
variação negativa desde março do ano passado, quando ficou em -3,1%.
O IBGE
revisou os resultados anteriores. A queda de janeiro foi 1,9%, menos
intensa que o recuo de 2% divulgado inicialmente. Já o crescimento de
março foi revisado para cima, passando de 0,3% para 0,6%.
Estagnação frente à conjuntura econômica
De acordo com o gerente da pesquisa do IBGE,
a atual conjuntura econômica do país segue sendo entrave para a
retomada da indústria brasileira. O aumento do custo de produção e a
escassez de algumas matérias-primas são os principais fatores que
justificam, a menor intensidade do ritmo da produção industrial no país.
“Pelo
lado da demanda doméstica, os juros elevados dificultam o acesso ao
crédito e inibem os investimentos, a inflação em patamares elevados
diminui a renda das famílias, o mercado de trabalho ainda não se
recuperou e a massa de rendimentos não avança. Assim, há menor recurso
por parte das famílias para que a demanda doméstica alavanque o consumo e
a produção”, explicou Macedo.
Ao divulgar o Produto Interno Bruto (PIB) do 1º trimestre, que cresceu 0,1% na comparação com o 4º trimestre do ano passado, o IBGE
apontou para a estagnação da indústria do país, que avançou apenas 0,1%
em relação ao trimestre imediatamente anterior, mas recuou 1,5% ante
igual período do ano passado.
Predomínio de taxas positivas
Macedo apontou que os três últimos resultados denotam uma melhora no
comportamento do setor industrial, que vem apresentando predomínio de
taxas positivas.
Em abril, 16 das 26 atividades industriais investigadas pelo IBGE apresentaram crescimento frente a março.
O destaque ficou por conta da atividade de coque, produtos derivados do
petróleo e biocombustíveis, que avançou 4,6% após dois meses seguidos
no campo negativo e respondeu pela principal influência positiva no
resultado do mês.
Também se destacaram as atividades de bebidas e outros produtos químicos, com alta de 5,2% e 2,8%, respectivamente.
Já dentre as dez atividades com queda na produção na passagem de março
para abril, se destacam a de produtos alimentícios e a de veículos
automotores, reboques e carrocerias, que recuaram 4,1% e 4,2%,
respectivamente, respondendo pelos principais impactos negativos no
resultado geral.
Dentre as grandes categorias econômicas, duas tiveram variação positiva frente a março, enquanto duas apresentaram queda:
- Bens intermediários: 0,8%
- Bens semi e não duráveis: 2,3%
- Bens duráveis: -5,5%
- Bens de capital: -9,2%
Já na comparação interanual, há predomínio de taxas negativas: 18 das 26 atividades investigadas tiveram queda na produção.
A atividade de veículos automotores, reboques e carrocerias, com queda
de 7,6% na comparação com abril do ano passado, foi a que exerceu a
maior influência negativa, seguida pela queda de 4,7% na atividade de
produtos alimentícios.
Também se destacaram negativamente as atividades de máquinas, aparelhos
e materiais elétricos (-16,7%) e de produtos de metal (-11,3%).
Já no grupo dos oito setores que cresceram, coque, produtos derivados
do petróleo e biocombustíveis (19,9%) exerceu a maior influência. Outros
impactos positivos importantes foram registrados por outros produtos
químicos (11,0%), bebidas (13,2%) e celulose, papel e produtos de papel
(2,8%).
Entre as grandes categorias econômicas, bens de consumo duráveis e bens
de capital registraram queda na comparação com abril do ano passado –
respectivamente de -13,2% e -5,1%. Já bens de consumo semi e não
duráveis e de bens intermediários avançaram nesta base de comparação,
com altas respectivas de 3,3% e 0,1%.
Produção de veículos freia indústria nacional
Após ter crescido em março (6,7% na comparação com fevereiro e 2,3%
ante março do ano passado), a produção de veículos voltou a ter queda em
abril – de -4,3% e de -7,6%, respectivamente.
De acordo com o gerente da pesquisa, além de ter sido a segunda
influência negativa no resultado de abril ante março e o principal
impacto negativo na comparação com abril do ano passado, a produção de
veículos é a que exerce maior influência negativa no acumulado do ano
para o setor industrial.
“A
atividade de veículos automotores é um exemplo de atividade com
dificuldade de acesso a matérias-primas e componentes eletrônicos,
levando a menor intensidade do ritmo de produção e interrupções nas
jornadas de trabalho”, analisou Macedo.
Dentre as 26 atividades industriais investigadas pelo IBGE,
a de veículos é a terceira com patamar de produção mais distante do que
era observado antes da pandemia – em abril, operava 16,9% abaixo de
nível de fevereiro de 2020.
Apenas dez das 26 atividades operavam em patamar superior ao período
pré-pandemia. Dentre as 16 que não recuperaram o nível de produção,
metade registra variação negativa de dois dígitos.
Perspectivas
A indústria brasileira continua sendo impactada pela alta dos preços
das matérias-primas, falta de insumos e restrições de oferta. O ambiente
ainda é de custos elevados por conta da energia e logística, e esse
cenário deve manter o setor com baixo dinamismo ao longo do ano.
"Ainda
há problemas de desabastecimento para bens, os custos seguem elevados,
temos juros em elevação que encarecem o crédito, a inflação mais alta
afeta a renda disponível bem como fatores ligados ao mercado de
trabalho, com milhões de desempregados e renda comprometida”, enfatizou o
pesquisador do IBGE André Macedo.
Apesar deste cenário, a confiança da indústria no Brasil alcançou, em maio, o maior patamar em cinco meses, conforme levantamento divulgado na semana passada pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Os dados mostraram que o Índice de Confiança da Indústria (ICI) subiu
2,3 pontos na comparação com o mês passado, para 99,7, máxima desde
dezembro de 2021 (100,1 pontos).
"Houve aumento da satisfação em relação à situação corrente dos
negócios, com avaliações bastante favoráveis quanto ao nível atual da
demanda externa", explicou o economista do FGV IBRE Aloisio Campelo Jr. em nota.