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segunda-feira, 29 de junho de 2020

Conflito entre Itaú e XP traz à tona divergências entre sócios

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Campanha publicitária causou mal-estar, mas banco evitará discutir participação agora 
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Por Talita Moreira e Adriana Cotias — De São Paulo  
29/06/2020 05h01  Atualizado há 5 horas
Postado em 29 de junho de 2020 às 10h05m

 .*  Post. N. = 0.024  *. 
No samba “Doralice”, de Dorival Caymmi, um homem apaixonado, mas cético, cede aos encantos da amada, mas quebra a cara. No mundo nada romântico das finanças, a união improvável entre o maior banco da América Latina e a maior plataforma independente de investimentos do país, selada em maio de 2017, enfrenta agora sua prova de fogo. O Itaú Unibanco pôs no ar na semana passada uma campanha publicitária que aponta supostos conflitos de interesse na remuneração de agentes autônomos, colocando o dedo na ferida do modelo da XP Investimentos, da qual é acionista. Esta reagiu falando mais grosso ainda e sugeriu que, se o sócio está insatisfeito, não faz sentido ficar na empresa.
O espanto foi tão grande que houve (e ainda há) quem visse na briga tapas tão legítimos quanto os da luta livre - com memes de todos os tipos, para alegria de quem vive na bolha da Faria Lima.
Não foi encenação. O Valor apurou com fontes de um e outro lado que há um transbordar de mágoas e questões mal resolvidas entre os sócios que perigam abalar a relação. A plataforma de investimentos já não é mais o único ponto com potencial de esfriar esse casamento. A XP começou a incomodar o Itaú também em ofertas de ações e renda fixa, entrando no mercado do Itaú BBA. Agora, prepara o lançamento de seu banco, para o qual contratou um nome de peso - José Berenguer, ex-presidente do J.P. Morgan.
Os presidentes das duas instituições não se falaram após o episódio, mas, no fim de semana, tentaram baixar a fervura. Candido Bracher, do Itaú, disse em vídeo para funcionários que a campanha não foi feita para atacar ninguém, mas para enaltecer o modelo de remuneração da área de investimentos do banco. Nossa competição sempre foi e sempre será na bola.
Numa live do escritório Blue Trade, Guilherme Benchimol, fundador da XP, disse esperar que a confusão tenha sido superada, mas reiterou que o Itaú é apenas sócio investidor e é contraditório ser acionista se talvez diga que aquilo lá não seja tão bom assim.
Na semana passada, Benchimol já havia questionado por que o Itaú é acionista da XP se não aposta no modelo da empresa. Outro sócio da plataforma, Guilherme Leal, também disse que o banco deveria repensar sua participação se não está confortável com ela.
Mas não há nenhum sinal de um desfecho nessa direção no curto prazo. Na visão de fontes próximas ao Itaú e a rivais, a XP estaria tentando aproveitar o entrevero para puxar uma discussão sobre a saída do acionista. Por isso, o banco pretende manter o debate circunscrito ao mercado de investimentos.
O Itaú detém 46% do capital total da XP e 32,49% das ações ON. Em 2022, tem a opção de adquirir uma fatia adicional, mas o contrato terá de ser submetido novamente ao Banco Central. O regulador barrou o acordo original, impedindo que a operação evoluísse para a compra do controle.
A aquisição tem a marca do banqueiro Roberto Setubal, então presidente do Itaú, entusiasta da XP. Do ponto de vista financeiro, foi um sucesso incontestável. O investimento que o banco fez, de R$ 6 bilhões, vale hoje 11 vezes mais.
Estamos muito satisfeitos com o investimento. Somos um sócio que interfere pouquíssimo, e a XP se beneficia do respaldo que o Itaú dá, afirma fonte ligada ao banco.
A questão é que a XP constrói seu marketing em cima da ideia de que os bancos não oferecem as melhores opções de investimento. Mesmo sendo acionista relevante, o Itaú não controla a plataforma e, assim, não tem ingerência sobre essa estratégia de comunicação.
Como desafio adicional, a crise atual se dá num contexto de taxa Selic em 2,25% ao ano. Até houve uma corrida de investidores pela proteção dos CDBs de grandes bancos em março e abril, mas os baixos retornos impelem o aplicador a diversificar e a tomar mais risco.
Desde que a aquisição foi feita, há um descontentamento da base de funcionários do banco, que viam a XP levar clientes e profissionais embora sem uma resposta à altura. A campanha da semana passada, com tom pouco habitual para o Itaú, teve também o intuito de elevar o moral da tropa.
O vídeo, veiculado em horário nobre na TV, aponta potenciais conflitos de interesse de assessores de investimentos na indicação de produtos e destaca uma suposta isenção dos gerentes do Personnalité, segmento de alta renda do Itaú. Os agentes autônomos, base do crescimento da XP, reagiram mal. A campanha vai continuar.
Para profissionais do Itaú, a instituição deixou a corretora crescer com o discurso de que os bancos são vilões e os gerentes, meros vendedores de títulos de capitalização. Diante disso, havia uma cobrança interna. Gerentes se sentiam desprestigiados e achavam que o banco pecava ao não mostrar os problemas das corretoras.
O Valor apurou que, mesmo entre executivos, havia dúvidas sobre até onde poderiam ir para contra-atacar uma empresa onde o banco investe. Apesar de o comando do Itaú sempre deixar claro que a XP era um concorrente como qualquer outro, muitos temiam bater de frente com a corretora.
Nos últimos anos, o Itaú reforçou seu programa de bônus para reter talentos e abriu a plataforma de investimentos. A remuneração dos gerentes dessa área passou a ser feita com base no volume total aplicado pelos clientes, e não por produto. As captações reagiram, mas não de forma cabal.
Fonte do Itaú diz ver na XP capacidade de inovação e boa liderança, mas é um erro achar que o banco ficará parado. Subestimar concorrentes nunca foi caminho para o êxito, observa.
Em 2019, o banco lançou manifesto sobre a concorrência. Mais tarde, num encontro com lideranças do banco, os copresidentes do conselho de administração, Pedro Moreira Salles e Roberto Setubal, disseram que era hora de irpro pau com as plataformas.
Finalmente o Itaú reagiu, e a resposta da XP foi infantil, diz um ex-executivo do banco que acredita que a instituição deve ter uma estratégia mais ampla para ter dado esse passo.
Contudo, discute-se dentro e fora do Itaú se o tom da campanha foi adequado. O banco adotou táticas de comunicação familiares da XP, mas esta se beneficia do engajamento dos autônomos que dependem dela. O Itaú entrou nesse jogo, e agora quem recuar será mal percebido, afirma um executivo de banco concorrente.O Itaú vai cortar um dobrado e talvez desejar não ter iniciado isso, diz outro interlocutor, este da área de investimentos.
No Itaú, a leitura é a de que, apesar da polêmica, a campanha cumpriu o propósito de gerar um debate sobre a independência de agentes autônomos. Não haveria por que entrar numa discussão sobre sua posição na XP. O que aconteceu é algo menor dentro da relação, diz fonte do banco.
A despeito das provocações em público, a fagulha comercial não tem relação com disputas entre acionistas, diz um sócio da XP. Briga societária não se tornaria comercial de TV. Ficaria no conselho, não viraria briga de coletinho, afirma, remetendo à peça de roupa que a corretora prometeu a quem fizesse uma TED do Itaú para lá. Mesmo assim, essa fonte diz que, para a XP, ter ou não o Itaú como acionista é indiferente.
É inegável, porém, que a chancela dada pelo banco ao comprar quase metade da empresa, avaliada em R$ 12 bilhões em 2017, a colocou em outro patamar. Se na época a XP tinha R$ 100 bilhões em custódia, hoje são R$ 412 bilhões. Na Nasdaq, o valor de mercado da XP equivale a R$ 133 bilhões, ou 53% do Itaú, 69% do Bradesco e mais do que Banco do Brasil e Santander, calcula Renato Breia, sócio da Nord Research.
Hoje, já seria mais fácil a XP andar sozinha, com R$ 7 bilhões em caixa, dos recursos levantados no IPO de dezembro, e um preço explícito no mercado. Ter o Itaú como sócio nunca foi questão de dinheiro, mas de compliance e segurança legal”, diz um executivo de banco rival. Isso ainda vale muito, mas já é menos importante.
Do lado dos bancos, as ações vêm perdendo múltiplos. Isso tem a ver, em parte, com o ataque de modelos novos, seja no crédito, nos investimentos ou na adquirência, diz fonte que transita nos setores bancário e de investimentos. É como ocorreu lá fora, com as fintechs comendo o queijo dos grandes bancos.
Para ele, o equilíbrio entre Itaú e XP se dá em bases instáveis, e quem leva a melhor por ora é a plataforma, que ganhou dinheiro quando o banco entrou na sociedade, quando listou ações na Nasdaq e porque tem a chance de vender o negócio mais uma vez na bolsa. O desfecho ainda é incerto. Como diz a música de Caymmi, agora, amor, Doralice, meu bem/Como é que nós vamos fazer?
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domingo, 28 de junho de 2020

Airbnb em crise com o coronavírus: 'Levamos 12 anos para construir a empresa e perdemos quase tudo em semanas'

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Executivo de uma das start-up mais bem-sucedidas da última década diz que corte de 25% de seus empregados (quase 2 mil pessoas) tornou empresa mais preparada para eventualidade de novas quarentenas — e que turismo nunca mais será o mesmo.   
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Por BBC  
26/06/2020 08h41  Atualizado há 2 dias
Postado em 28 de junho de 2020 às 14h00m

 .*  Post. N. = 0.023  *. 
Brian Chesky disse que Airbnb passa pelo maior desafio da sua história — Foto: Getty Images via BBC
Brian Chesky disse que Airbnb passa pelo maior desafio da sua história — Foto: Getty Images via BBC

A empresa Airbnb esteve perto de perder tudo.
O golpe devastador da pandemia na indústria turística colocou a start-up, considerada uma das empresas de tecnologia mais valiosas dos Estados Unidos, diante do maior desafio da sua história.

"Demoramos 12 anos para construir o negócio do Airbnb e perdemos quase tudo em questão de quatro a seis semanas", revelou o diretor e fundador da empresa, Brian Chesky, esta semana.

Em uma entrevista para a rede americana CNBC, Chesky detalhou os problemas do Airbnb e compartilhou seus prognósticos sobre o futuro da indústria, que será "muito diferente" do que a que conhecemos.

Viagens paralisadas
A crise da Covid-19 afetou duramente o Airbnb no começo de março, quando o turismo ficou paralisado em meio às quarentenas ao redor do mundo.

Foi aqui que, "como não era de se estranhar", o Airbnb perdeu quase tudo em poucas semanas, explicou Chesky.

O coronavírus fez com que a start-up tivesse que reduzir drasticamente seus custos, o que levou à demissão de 1,9 mil pessoas — ou 25% de seus empregados — e eliminação de gastos com marketing, entre outros.

"Foi uma experiência horrível", disse.
"Não sabemos quanto tempo essa tormenta vai nos atingir, por isso, então esperamos o melhor, mas nos preparamos para o pior."

O corte de pessoal — que a imprensa americana classificou como um dos maiores feitos no Vale do Silício (apelido dado à região perto de San Francisco onde ficam várias das maiores empresas de tecnologia do mundo) durante a Covid-19 — permitirá que a empresa possa aguentar uma nova fase da crise, diz o executivo.
O golpe da crise levou a empresa a fazer duros ajustes — Foto: Getty Images via BBC
O golpe da crise levou a empresa a fazer duros ajustes — Foto: Getty Images via BBC

"Se tivermos outra quarentena ou várias quarentenas, se as comunidades continuarem obrigadas a fechar e o turismo parar, estaremos bem com as mudanças que fizemos."

Este ano, o Airbnb estima que terá menos da metade das receitas de 2019, segundo mensagem enviada pelo executivo a seus empregados, na época do anúncio dos cortes.

O futuro do turismo
Ainda que a empresa não tenha se recuperado, nos últimos meses, ela tem "produzido algo significativo", segundo o diretor.

No final de maio e começo de junho, o Airbnb registrou o mesmo volume de reservas que o ano anterior nos Estados Unidos, mesmo sem nenhum tipo de investimento em publicidade.
Isso, na opinião de Chesky, reflete o fato de que as pessoas querem se relacionar com os demais — que querem sair de casa.

"Acho que o turismo vai voltar, mas tomará mais tempo do que pensávamos e será diferente."
O confundador do Airbnb acredita que, nas férias, muitas pessoas trocarão viagens de avião por viagens de carro para lugares mais próximos — Foto: Getty Images via BBC
O confundador do Airbnb acredita que, nas férias, muitas pessoas trocarão viagens de avião por viagens de carro para lugares mais próximos — Foto: Getty Images via BBC

O diretor executivo do Airbnb tem certeza: o turismo tal como o conhecíamos é coisa do passado.

"Ninguém sabe como será, mas acho que veremos uma redistribuição dos lugares para onde se viaja."

Nesse novo panorama e com dados disponíveis do Airbnb, Chesky prevê que, diante das incertezas provocadas pelo vírus, o enfoque será sobre o turismo interno, com viagens a comunidades locais.

No momento, há alguns dados que trazem esperança para a empresa. O Airbnb não perdeu nenhum imóvel na sua plataforma.
"Temos mais casas hoje do que quando começou a Covid-19", diz o co-fundador.
Viajar para Paris ou para perto de sua casa? A segunda opção será mais viável, acredita o executivo — Foto: Getty Images via BBC
Viajar para Paris ou para perto de sua casa? A segunda opção será mais viável, acredita o executivo — Foto: Getty Images via BBC

A Airbnb queria abrir em bolsa neste ano, uma medida que ainda não está descartada, mas que já não é mais um compromisso da diretoria.
O co-fundador diz que é um momento para ser mais moderado e não ver as coisas de forma tão extrema.

"Espero que esses últimos quatro meses tenham sido uma lição."
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sábado, 27 de junho de 2020

Trabalhador menos qualificado será o mais atingido pelo desemprego; veja cenários para o mercado de trabalho pós-pandemia

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Pandemia aumentou ainda mais o número de desempregados e trouxe cautela nas contratações; especialistas creem que jovens serão os mais atingidos, salários serão mais baixos e que haverá explosão da informalidade.  
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Por Marta Cavallini, G1  
27/06/2020 05h00  Atualizado há 10 horas
Postado em 27 de junho de 2020 às 15h00m

 .*  Post. N. = 0.022  *. 
Flávia Oliveira: ‘Há um acirramento da desigualdade no mercado de trabalho’
Flávia Oliveira: ‘Há um acirramento da desigualdade no mercado de trabalho’

A pandemia trará um efeito devastador no mercado de trabalho, afetando principalmente os trabalhadores menos qualificados e mais jovens, segundo previsão de especialistas.

Além de estatísticas oficiais já mostrarem o aumento do desemprego no país mês a mês, pesquisas mostram que as empresas já estão congelando ou reduzindo contratações, salários e promoções e preveem enxugar ainda mais o quadro de funcionários.

Em abril, a taxa de desemprego estava em 12,6%, atingindo 12,8 milhões de pessoas. Somente no trimestre terminado naquele mês, quase 5 milhões de postos de trabalho foram fechados em relação ao trimestre terminado em janeiro, segundo a Pnad Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Dos 4,9 milhões de pessoas a menos na ocupação, 3,7 milhões foram de trabalhadores informais. O emprego com carteira assinada no setor privado teve uma queda recorde também, levando ao menor contingente de pessoas com carteira assinada, que é de 32,2 milhões.
Os números do IBGE do 1º trimestre também mostram que o desemprego é maior entre trabalhadores com escolaridade mais baixa e entre os jovens:
  • O desemprego é maior na faixa etária de 14 a 17 anos (44%) e de 18 a 24 anos (27,1%)
  • No Nordeste, o desemprego na faixa entre 14 e 17 anos chegou a 34,1%
  • O desemprego é maior entre as pessoas com ensino médio incompleto (20,4%)
  • Para o grupo com nível superior incompleto, a taxa foi estimada em 14%, mais que o dobro da verificada para aqueles com nível superior completo (6,3%)
Os impactos da pandemia na atividade econômica levaram ainda ao fechamento de 1,1 milhão de vagas de trabalho com carteira assinada entre os meses de março e abril. Apenas em abril, foram fechados 860,5 mil postos de emprego formal, o pior resultado para um único mês em 29 anos, segundo dados do Caged, do Ministério da Economia.
Juliana Inhasz, coordenadora da graduação em economia do Insper, afirma que os efeitos para o trabalhador desempregado com renda mais baixa serão mais perversos porque, no geral, ele possui qualificação menor e terão de disputar vagas com aqueles que têm qualificação maior.
A gente tem um mercado com muita gente desempregada, inclusive com mais qualificação, que se mostra disposta a trabalhar por salários menores do que ganhava quando deixou o mercado. E essas pessoas vão acabar sendo talvez mais atrativas do que as com baixa qualificação. Então esses trabalhadores de baixa renda vão ter uma dificuldade maior para se recolocar, diz.
Para Juliana, a recolocação deve ser difícil especialmente para quem não tem nenhuma qualificação nem diferencial, porque o mercado estará concorrido, e a volta ao mercado se tornará mais fácil à medida que ele voltar se aquecer, mas não há como prever quando isso vai acontecer.

Essa retomada do mercado pode acontecer de uma forma muito lenta e gradual, e aí quando a gente olha as pautas que o governo deve começar a colocar em jogo de novo, como as reformas tributária e administrativa, que devem segurar um pouco a economia no curto prazo, talvez essa retomada seja lenta, então a gente está falando aí de trabalhadores que vão ficar sem emprego durante um tempo relativamente elevado, prevê.
IBGE divulga resultado de pesquisa que mostra reflexos da pandemia no mercado de trabalho
IBGE divulga resultado de pesquisa que mostra reflexos da pandemia no mercado de trabalho

Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, considera que, quando há uma crise no mercado de trabalho, os mais atingidos são os que têm menor qualificação, em especial os jovens com menos experiência e menos a oferecer.

Então as pessoas que têm menor escolaridade e menos qualificação terão mais dificuldade de se recolocar do que quem tem formação superior e especializações. Os jovens tiveram a possibilidade do serviço de entrega que foi um certo colchão, afirma.
Daniel Duque aponta que os trabalhadores mais qualificados tiveram uma piora bem menos significativa.
Quando você olha a renda média da Pnad Contínua ou o salário de admissão do Caged, eles aumentaram. Isso significa que estão sendo expulsos do mercado de trabalho aqueles com menores rendimentos, e os empregos formais criados no período de pandemia são os de maior salário, então você vê mesmo uma mudança de composição do mercado de trabalho, informa.
Informalidade
Comércio informal em frente à Central do Brasil, no Centro do Rio, promove aglomeração de pessoas — Foto: Globocop
Comércio informal em frente à Central do Brasil, no Centro do Rio, promove aglomeração de pessoas — Foto: Globocop

Para Duque, a grande questão será a capacidade do mercado de absorver os informais. É claro que existe no setor informal uma menor dependência da atividade econômica. Mas é possível que o mercado não consiga absorver essa informalidade ainda mais pela situação das aglomerações, desse ambiente do qual a informalidade depende que agora está muito limitado. O que eu acho que vai acontecer é o aumento não só da informalidade, mas do próprio desemprego. E isso afeta também os autônomos.

Segundo ele, o comércio e serviços dos informais dependem muito de aglomerações para ter viabilidade econômica. E a redução do movimento de pessoas com a pandemia gera perda de ocupação dos informais também.

Duque prevê que a chamada economia de bicos vai crescer muito. Ela vai gerar cada vez mais um novo normal na economia. E isso vai ter um efeito ruim para o mercado de trabalho no sentido de que as pessoas vão ter cada vez mais volatividade nos rendimentos, diz.

Juliana aponta que o aumento de autônomos se dará por necessidade e falta de oportunidades. Vai ter aumento de muita gente fazendo bico, se virando, sem uma colocação muitas vezes nítida, mas que está tentando de alguma forma criar renda.

Na opinião de Juliana, a fragilidade econômica e a recolocação mais difícil naturalmente empurram trabalhadores para situações desfavoráveis, como a informalidade, que deve continuar crescente, e menor proteção trabalhista.

É um trabalhador que está mais desprotegido porque concorre com muita gente que está desempregada, então vai ter que abrir mão de muita coisa para conseguir se recolocar e infelizmente pior do que quando saiu desse mercado, com salários mais baixos e certamente com uma informalidade maior e emprego de pior qualidade, comenta.

Salários
Duque estima que nos próximos meses ou talvez anos não haja grandes ganhos salariais. Para ele, a economia pós-Covid trará grandes investimentos em tecnologia e, ao mesmo tempo, menor contratação de trabalhadores, de modo que isso tende a gerar uma perda relativa dos salários em relação à produção. Ou seja, mesmo que a economia cresça, a gente não deve ver nos próximos anos um crescimento significativo ou até existente da renda do trabalho no país.

Juliana lembra que as empresas já estão congelando e reduzindo salários e contratações. Então, naturalmente, o mercado de trabalho continuará sofrendo enquanto a economia não voltar a ser ativada de forma mais vigorosa.

Os salários provavelmente serão achatados, especialmente para as pessoas que entram no mercado, então vão se recolocar com um salário menor. Quem está no mercado vai conseguir reajustes menores, e quem se recolocar será ou com contrato pessoa jurídica (PJ), temporário ou informal, opina.

Setores em alta e baixa
Com aumento nas vendas, supermercados garantem novas oportunidades de emprego na quarentena — Foto: Reprodução/TV TEM
Com aumento nas vendas, supermercados garantem novas oportunidades de emprego na quarentena — Foto: Reprodução/TV TEM

Duque acredita que os setores de alimentação, saúde, tecnologia e telecomunicações serão grandes contratadores. Com a adoção do teletrabalho, haverá muita demanda de tecnologia que possibilite isso, a internet e equipamentos de informática terão que ser melhores, assim como a própria manutenção que terá de ser frequente, então esse tipo de produção e serviços exigem maior qualificação e serão cada vez mais demandados, afirma.

Já Juliana aponta que o setor de serviços é o mais afetado com a queda na renda.As pessoas deixaram de lado vários hábitos e acabaram cortando gastos justamente nesse setor. O comércio também sai um tanto abalado por conta disso. Tirando aquilo que é necessidade básica, como alimentação, moradia e gastos com saúde, despesas com supérfluos, que não são itens de primeira necessidade, devem cair substancialmente, diz.

Idosos
Levantamento elaborado pelo economista Bruno Ottoni, pesquisador do IDados e do Ibre/FGV, com bases em dados do IBGE, mostra que 1,3 milhão de idosos deixaram de trabalhar ou procurar um emprego no primeiro trimestre em comparação com mesmo período do ano anterior.

É esperado que as pessoas mais velhas, inclusive devido a aposentadorias, sejam proporcionalmente as que mais saiam da força de trabalho, mas Ottoni diz que ficou impressionado com o volume. O economista lista como hipóteses para a aceleração da saída dos mais velhos do mercado de trabalho a decisão de pessoas já aposentadas de deixar um trabalho informal para ficar em casa ou a opção dos empregadores por funcionários mais jovens e menos vulneráveis à Covid-19.

A coordenadora da graduação em economia do Insper afirma que profissionais têm aceitado trabalhar por salários mais baixos e em condições diferentes por conta do tempo que falta para a aposentadoria.

A mudança do sistema previdenciário fez com que as pessoas tivessem que ficar mais tempo trabalhando. Os mais velhos são prejudicados assim como os mais jovens porque os salários são mais achatados e as condições de trabalho estão piores que antes, explica.

Saída será se reinventar
Duque indica aos trabalhadores a busca de habilidades na área de tecnologia, que terá muita demanda de profissionais nos próximos anos.

O problema é que parte da população adulta tem menos capacidade de aprendizado de novas habilidades e baixa qualificação, então essa combinação dificulta muito a capacidade de se reinventarem de tal forma a conseguir se readaptar. Então a tendência é elas serem absorvidas pela economia de bicos ou ficarem desempregadas, comenta.

Juliana aponta que uma alternativa aos trabalhadores de baixa renda é investir em qualificação mais simples. O ideal seria investir em mais qualificação, e a gente não fala aqui em qualificação de alto nível, como MBA ou pós-graduação, mas buscar um novo horizonte, se reciclar, buscar conhecimento novo dentro da mesma área, perceber o que o mercado de trabalho está procurando.

Para ela, os profissionais mais valorizados serão aqueles que aceitem contratação via PJ, com contratos mais flexíveis, jornadas um pouco menores e mais customizadas.

O mercado vai exigir cada vez mais um trabalhador que consiga se adequar a momentos cada vez mais diferentes ou difíceis. Versátil para encarar a dificuldade como um desafio, adaptável a qualquer situação rapidamente e com disposição para se aperfeiçoar, explica.

Juliana afirma que sai na frente quem enxerga dentro da crise grandes oportunidades de crescimento profissional. O mercado está precisando de gente para fazer coisas que antes não precisava, então muitas vezes o profissional pode se qualificar no sentido de estudar mais o mercado, e aí dentro de sua própria área ver possibilidades que existem para que possa se recolocar.

No caso do setor de serviços, que é o que mais emprega no país e foi fortemente abalado pela pandemia, quem perder o emprego terá que se reinventar e procurar onde a demanda está concentrada.

"A grande saída nesse primeiro momento é entender qual é a forma de adaptar o que eu presto de serviço para aquilo que o mercado quer agora. Se não for possível se reinventar, a ideia é procurar outra oportunidade, então será que eu posso fazer alguma outra coisa que o mercado quer? Porque, caso contrário, as pessoas vão cair numa situação de fragilidade econômica e social muito grande, avalia a coordenadora da graduação em economia do Insper.
Pesquisa do Pnad investiga os efeitos da pandemia no mercado de trabalho
Pesquisa do Pnad investiga os efeitos da pandemia no mercado de trabalho

Compensação de renda como alternativa
Daniel Duque aponta que, a até a pandemia deixar de ser uma preocupação mundial, não haverá uma retomada das atividades do comércio como era anteriormente. O consumo presencial será substituído pelo consumo na internet, que já era uma tendência e houve um aumento da participação desse setor, avalia.

O economista afirma que essas mudanças tendem a ser poupadoras de mão de obra, ou seja, haverá menos demanda por profissionais, pois a nova configuração mundial será baseada na dependência menor de trabalhadores para a produção econômica. Por isso, na opinião dele, medidas de proteção de emprego podem ser ineficazes porque não fazem sentido para uma empresa que precisa mudar, poupar mão de obra, diminuir o efetivo permanentemente.

É preciso criar mecanismos de compensação de renda para quem for afetado nessa pandemia. Essa é a grande política pública pós-pandemia, recomenda.

Ele sugere a criação de um programa mais abrangente de transferência de renda, hoje limitado ao Bolsa Família que, para ele, tem um critério de renda limitado.

As pessoas vão cada vez mais transitar entre a pobreza e não pobreza, como os informais, por exemplo, que às vezes conseguem uma renda melhor num mês e no outro não consegue nada. E programas que se limitam a uma linha de renda muito baixa como o Bolsa Família acabam excluindo essa parte da população. Então a gente vai ter que criar uma nova estrutura que permita chegar a uma parte maior da população e focar nos informais, nas mães com crianças, opina.

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